segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Eugénio de Andrade e Brendan Higgins


Os olhos rasos de água

 

Cansado de ser homem o dia inteiro

chego à noite com os olhos rasos de água.

Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,

entrar dentro de ti como num bosque.

 

É a hora de fazer milagres:

posso ressuscitar os mortos e trazê-los

a este quarto branco e despovoado,

onde entro sempre pela primeira vez,

para falarmos das grandes searas de trigo

afogadas na luz do amanhecer.

 

Posso prometer uma viagem ao paraíso

a quem se estender ao pé de mim,

ou deixar uma lágrima nos meus olhos

ser a nostalgia das areias.

 

É a hora de adormecer na tua boca,

como um marinheiro num barco naufragado,

o vento na margem das espigas.
 

HIGGINS, Brendan, "Water Series", 2013

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