sexta-feira, 8 de agosto de 2014

Uma Imagem, Dois Textos...



Joan MIRÓ, "Couple Sur la Lune"
 
 


O “amigo”


Gostava de desenhar. Em pequeno, desenhava figuras a quem dava um nome e tratava de “amigos”. A maior parte desses “amigos” havia desaparecido com o tempo, como é próprio da vida. Eles vêm e vão e poucos ficam. Mas aquele havia ficado sempre. Arranjara uma moldura onde colocara a sua fotografia de modo a que ele se sentisse especial e estivesse sempre ao seu lado.

Porém, uma ideia terrível começara a despontar na sua cabeça há algum tempo. O seu “amigo” não era feliz! Andava a observá-lo com atenção e o seu sorriso já não brilhava. O que se passaria? Decidiu diversificar as brincadeiras. Se calhar estava cansado de ser sempre o “bom”, de lutar em vão contra o poder do Mal. Ofereceu-lhe o carro maior e melhor que tinha, de modo a que pudesse ganhar sempre as corridas. Mas tudo permanecia na mesma.

Foi então que, nessa manhã, compreendeu. Como poderia ele ser feliz se nunca tinha tido uma família? Ele, de facto, nunca tinha conhecido a mãe e o pai do “amigo”. Mas o “amigo” conhecia os seus progenitores. Teria saudades da mãe? Quereria brincar com o pai? Como resolveria o problema?

Teve, então, uma ideia. Pegou nos seus lápis e, após longa conversa com o “amigo”, fez um retrato da família do “amigo”. O pai viajava com frequência e trazia-lhe sempre uma surpresa quando regressava. A sua preferida tinha sido uma bola vermelha, grande, com que já marcara muitos golos. A mãe cuidava dele com carinho, inventava muitas brincadeiras, abria os braços risonhos, e, entre o Sol e a Lua que um dia haviam pendurado no seu quarto, contava-lhe imensas histórias. Esticou os braços, olhou para o desenho. Estava perfeito!

Nessa noite, o pai abriu a porta devagar, iluminando a mancha vermelha, grande, pousada no chão. Em pezinhos de lã, para não o acordar, abeirou-se do filho, aconchegou-lhe o lençol, e deu-lhe um beijo de algodão. A Lua pendurada no teto do seu quarto balançava, inquieta: tantas novidades para contar e o Sol nunca mais nascia…
 
(SV)
 
 
 
 
 
 
Não existe mundo lá fora...
 
 
(PM)
 
 

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