domingo, 23 de março de 2014

Uma Imagem, Dois Textos...


Wosene KOSROF, "The Colour of words"
 
 
A decisão
Vivia no centro de uma cidade movimentada. Quando lhe perguntavam onde morava, dizia sempre que morava num carrocel, porque, naquela cidade, não havia semáforos, apenas rotundas, que os automóveis contornavam como se fizessem parte de um carrocel. Quanto aos peões, tinham passadeiras ao longo das estradas que atravessavam sem grande problema, visto que, de um modo geral, os condutores paravam para os deixarem alcançar o outro lado do tapete negro. Nas estradas mais movimentadas, as passadeiras aéreas resolviam bem o problema. E ninguém se queixava.
Ela gostava de sair à rua, de passear pela cidade, de sentir o seu coração pulsar nas viaturas que circulavam, nos passos das pessoas, nas conversas cortadas de que só entendia uma ou duas palavras, na variação dos timbres das vozes dos transeuntes, nas músicas das lojas por onde passava, no cheiro das castanhas assadas que a perseguia até não mais lhe poder resistir.
Gostava de se sentar no banco da praça principal e de observar as pessoas, os prédios, os carros, os cães… Havia um, de pelo castanho, que sempre que a via ali se ia sentar aos seus pés, a fazer-lhe companhia. E, enquanto ela ali permanecesse, ele também não se mexia mais. De vez em quando erguia a cabeça, olhava para ela e voltava a dormitar. Desde que o conhecera, havia cerca de três semanas, que se preocupara em lhe arranjar um nome. Não se sentia bem a desfrutar da sua companhia sem saber o seu nome. Inicialmente, ainda foi olhando ao seu redor, à procura do dono, mas nunca vislumbrou ninguém que manifestasse interesse pelo cão e vice-versa. O animal estava, aparentemente, bem nutrido e tinha coleira, mas ninguém parecia interessar-se por ele. Talvez tivesse sido abandonado recentemente. De vez em quando, trazia-lhe restos das suas refeições, que ele só provava. Em consequência, outros cães, com um vivível ar esfomeado, aproximavam-se a medo e iam comendo o que ele deixara. Estava, então, decidido: enquanto não encontrasse um nome que lhe agradasse, decidiu tratá-lo por Vadio. E Vadio foi ficando.
Em frente do local onde gostava de descansar, do outro lado da estrada, havia um museu. O seu sonho era, um dia, conseguir expor ali os seus quadros. Conhecia-o como a palma da sua mão. Já o visitara tantas vezes, que tinha a certeza de que conseguiria percorrer os seus corredores de olhos fechados sem se enganar. O Vadio também já o conhecia, sem nunca lá ter entrado, só de a ouvir descrever o chão de mármore preto, salpicado pelo brilho das estrelas, as paredes da cor da calçada, as portas envidraçadas e os quadros, os quadros que ela descrevia com tanto pormenor até ao mais pequeno e quase impercetível ponto. Especialmente um determinado quadro, composto por imensos quadrados pequenos, preenchidos por pequenas formas, desenhos, alguns riscos que ela não compreendia, mas que apreciava. E então calava-se, como se estivesse a contemplar o quadro, a conversar com ele. Sempre que ia ao museu, permanecia tempos infinitos frente à mesma obra. De cada vez que o fazia, detinha-se num quadrado de cada vez. Não mais. E em cada quadrado enterrava uma esperança. Sentia-se apagar aos poucos, como se o quadro fosse, lentamente, ficando com o seu coração.
Era quando ela se calava que o cão erguia a cabeça, como que mostrando-lhe que a estava a ouvir, incentivando-a a continuar. Percebia o seu olhar vago, triste, igual ao seu. Só pousava a cabeça novamente, quando ela retomava o seu discurso. Não sabia explicar por que a fascinava aquele quadro. Havia formas que lhe lembravam narizes variados. Outras, letras. Outras ainda, cruzes. E pessoas. Num quadradinho, mais ao fundo, por exemplo, distinguia o que lhe parecia ser uma pessoa-formiga a correr por um descampado depois de ter atravessado uma estrada. Também via uma pessoa-Cristo-Rei e outra ainda parecendo levar um cesto à cabeça. No meio de tantas formas, onde os seus olhos mais tempo permaneciam era num vulto preto que parecia curvado sob o peso da vida, completamente derrotado, vencido, conformado. De alguma forma, aquele quadro incomodava-a, mas não conseguia deixar de pensar nele e de o observar longamente.
O tempo foi passando e o dia de tomar a decisão estava a aproximar-se. Sabia que já a devia ter tomado há muito tempo, mas não conseguia compreender na perfeição os sentimentos que a habitavam. Sabia que gostava dele, mas aquela noite em que ele levantara a voz, irritado por ela não se ter mostrado disponível para passar a noite na sua companhia, deixara marcas que não conseguia compreender. Recordava vezes sem conta a indelicadeza para com o empregado de mesa, porque nunca mais trazia a conta. Recordava a prenda de aniversário que ela lhe oferecera pousada em cima da mesa depois de ele se ter levantado para sair do restaurante. Recordava o tom de voz alterado que ela nunca lhe conhecera antes. Sabia que naquela noite se perdera a magia. Só não sabia se poderia viver sem ela. Desde então, ia evitando a sua companhia. Inventava más disposições, reuniões. Precisava de se afastar dele, de perceber a dimensão dos estragos. Por que diabo era ela assim? Já devia ter terminado tudo. Não sabia viver assim. Precisava de acreditar, de confiar. E se aquela situação se voltasse a repetir? Prometera que, quando observasse o último quadrado do quadro, tomaria a decisão. E assim faria. No dia seguinte decidiria se daria uma segunda oportunidade àquela relação ou se desistiria dela.
Na manhã seguinte, antes de entrar no museu, sentou-se numa mesa de esplanada na praça principal enquanto bebia um café. Precisava de coragem. Quase não dormira durante a noite, revendo sem cessar os momentos que haviam passado juntos, pesando uns, comparando outros, imaginando-se sozinha e acompanhada. Não gostava de estar sozinha, mas que preço estaria ela disposta a pagar por companhia? No fundo, há muito tempo que ela sabia a resposta. Só não sabia se a queria tomar.
De repente, sentiu qualquer coisa nos pés. Era o Vadio! Um sorriso desenhou-se nos seus lábios. Estava mesmo a precisar de companhia e ele parecia sempre adivinhar o momento certo.
- Ah! Percebo agora por que desapareceste! Encontraste alguém mais bonito do que eu e não hesitaste em trocar-me!
Uma voz masculina, prazenteira, fê-la olhar para os lados, depois para trás. Um homem alto, de cabelo e olhos castanhos, barba rala e dentes à mostra, olhava para o cão com um ar meio zangado meio a brincar. Ela olhava para ele sem compreender muito bem – afinal o Vadio… não era vadio?
- Não, não é vadio. Só que, da última vez que vim com ele à rua, encontrei um amigo com quem fiquei a conversar um pouco e, quando dei conta, deixei de ver o Picasso. Entretanto, por motivos profissionais, tive que me ausentar do país uns dias e não pude continuar a procurá-lo. Cheguei ontem à noite e hoje de manhã decidi que a primeira coisa que faria seria procurar o Picasso.
A sério? Chamava-se Picasso?! Picasso?! Dar o nome de um dos maiores artistas a um cão?
- Pois. O Picasso é o meu artista preferido. E achei que a melhor homenagem que lhe poderia prestar seria dar o seu nome a este cão maravilhoso que eu adoro!
Era, de facto, um cão maravilhoso, não havia dúvida. Durante três semanas fizera-lhe companhia, ouvira as suas dúvidas, as suas angústias, até as descrições dos quadros do museu…
- Ah! Já foi ver a exposição temporária do Museu da Cidade? E gostou?
Já a visitara inúmeras vezes. Perdera-lhe a conta, já. Era fantástica! Aliás, ia vê-la agora, novamente, depois de terminar o café…
- Deixe-me, então, oferecer-lhe a entrada. O meu nome é João Diogo e trabalho no museu. Não é incómodo nenhum. Será um prazer, senhora…
Teresa. Teresa Pereira. Foi com ânimo que se levantou da cadeira e estendeu a mão àquele simpático desconhecido que o destino acabara de colocar no seu caminho. Foi com um sorriso a iluminar-lhe o rosto que se encaminhou para o museu. Enquanto comentava a exposição e o seu gosto pela arte, reparou que se sentia mais leve e que a decisão estava tomada…
SV
 
 
 
 


Caminhavas de mãos dadas com a tua mãe. Sentias que te apertava a mão de forma diferente, naquele dia. Havia um nervosismo no rosto, que ia escondendo com pequenos sorrisos, brilhos feitos de milésimos-esperanças. O caminho que atravessavam era estreito, mas familiar. A senhora do lenço vermelho na cabeça, com quem se cruzaram, que muito transpirava, ao ver-vos, soltara uma gargalhada estridente, à qual se seguira um comentário “Ai, é hoje, parece um anjinho que vai a caminho do céu! Que felicidade, que felicidade”. Naquele momento pensaste que ias a caminho de um ritual qualquer em que te iriam vestir com caramelo quente para assim entrares no céu. E por isso tanto estranhaste o portão de ferro cheio de ferrugem. Havia muitos iguais a ti no largo recreio, em frente à porta de madeira da sala. Tinham todos uma bata branca, qualquer uma delas incólume na sua pureza angelical. Alguém te perguntara o que trazias no rosto. E tu responderas que sempre as tiveras. As sardas até te davam um ar curioso. Mas aquilo que mais te marcava eram os olhos. Grandes. E ternos. Muito meigos. Sentia-los perdidos, naquele dia. Procuravam algo que nunca conseguiras explicar. Ao fundo, as lágrimas da tua mãe escorriam e não percebias os motivos. Não era bom estar ali, afinal? Será que aquilo era mesmo o céu?

(Porque choras, mãe?)
 
            O toque. Ainda hoje te recordas do toque. Nunca mais te largou. Longo. Como se um comboio tivesse acabado de chegar à estação, depois de uma extenuante caminhada por montes e vales. Ou como se este toque definisse a tua vida-viagem futura. Viste-te, de repente, numa fila em que todos se encontravam como num novelo prestes a ser enrolado. Sorriste. Veio-te à imagem os gestos meticulosos dos teus pais a fazerem os novelos de fios. O teu pai afastara os braços, com as linhas à volta, a tua mãe ia soltando os fios e as bolas de fio iam crescendo, crescendo, crescendo. Apetecia-te sempre pegares naquelas bolas de fios, agarrares a ponta e atirá-los na varanda onde tocavas a bateria (ainda lá estará?). Mas já acontecera e a recordação do castigo ainda te pesava, depois de uma tarde de fios sem conta a serem enrolados e de uns quantos rolos a serem alinhados por cores e texturas.
(Era apenas uma criança, mãe...)

 (Rimo-nos tanto, depois. Tanto.)
 
A sala cheirava a madeira antiga, usada. Entráramos todos em silêncio. Os mais atrevidos correram para as mesas da frente. Sentias-te empurrado porque incomodavas quem queria passar (tem sido tanto assim, depois). Sem que te apercebesses, a sala pareceu ficar mergulhada em rostos curiosos. Havia mapas estranhos nas paredes, letras esquisitas, desenhos de coisas que não entendias. Procuravas um lugar. Olharas para trás e a tua mãe fazia-te um sinal para uma das mesas que se encontrava no fim da sala. Eras o único que estava de pé. E mal te sentaste, logo te levantaste. Entrara a professora. Tinha nome de flor. Ainda hoje te lembras das primeiras palavras. “Olá, meninos, hoje começa uma nova vida para todos vós. Hoje começa a escola.” De alguma forma, descansaste com aquelas palavras. Desvanecera-se a ideia de seres vestido com caramelo quente. Achaste a voz da professora autoritária mas carinhosa.

(Já não serás flor viva, professora. E deste tanta água a quem quis crescer. Uns tornaram-se o que foste, outros seguiram diferentes caminhos. Recordar-se-ão do teu nome de flor, professora?)
 
E foi nesse dia que descobriste o que era um “b”. E um “a”. E que estas duas letras juntas davam “ba”. E nós iríamos todos aprender o “b… à… bá”. E o mundo passou a ter sentimentos, expressões. Andámos de mão dada com ele. Aprendemos aquilo que estas duas letras podem formar. 
 

amor ódio nuvem máscara mar crime choro
incompreensão comunhão escrita solidão
fingimento beleza liberdade
criança
arma ajuda poesia dor teatro
lã corpo sorriso espuma deuses cumplicidade lua
infinito violação livro
extermínio caos silêncio amigo
eu tu
nós
 
O dia acabara. As mesas de madeira, inclinadas, tinham ficado na sala. Saíra de lá com a sensação que o mundo era demasiadamente grande, assustador. E teria que lá voltar. E assim o fez. Uma, duas, vezes-sem-conta. As letras, os números. As cores dos lápis de madeira faziam surgir, em anónimas folhas de papel branco, mundos imaginados em casa, entre pequenos carrinhos-vrum-vrum, bonecos-bang-bang e bolas-tonc-tonc atiradas contra a parede. No seu mundo, o Espaço-Sonho ia-se tornando uma realidade cada vez mais visível, os tesouros dos fundos dos mares, 

… euuu souuuu…
… o pirata da perna de pau…
… olho de vidro…
…cara de mau…
mais brilhantes, perigosos…

(Mas como sempre os quis, mãe, sempre os quis e nem sabia, pai!).
 
E as paredes desnudaram-se. Passeavam em segredo, lânguidas, por entre olhos ávidos de conhecimento. 

Gosto de ti. Tanto…

A máscara do dia a dia…

Maldita a Morte…
A liberdade que me conforta…
A escrita que me salva…

Fantasmas que me fazem correr…
O teatro que me transforma…

O corpo da Lua que ilumina…
A brisa que me afaga…

A injustiça que odeio…

O rancor que me devora…
A solidão que me adormece…
 
(Palavras-Oxigénio)
 
 
 
(PM)
 

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