domingo, 10 de novembro de 2013

Uma Imagem, Dois Textos...



Hessam ABRISHAMI, “Spring Dream
 
 

O concerto

Naquela tarde, o sol sorria e as pessoas devolviam-lhe o gesto com gargalhadas felizes. O livro debaixo do braço, a mala de pele a tiracolo – e ali estava ela, no local mais fresco e reconfortante que conhecia. Gostava da companhia dos patos. Sobretudo dos mais pequeninos, protegidos pela mãe, que não os largava nunca. Eram as delícias das crianças, que lhes atiravam pão ou bolachas. Ao fundo, no anfiteatro poligonal, uma orquestra dispersa treinava uns acordes, pedaços de peças que, naquele fim de tarde, tocariam para quem quisesse ouvir. Normalmente, ela acabava por ficar. Gostava de música, especialmente quando esta era tocada ao ar livre, num jardim mágico como aquele.

Colocou o seu casaco no chão e sentou-se em cima dele, os braços apoiados atrás, a cabeça virada para o Sol, a receber sorrisos. Um pouco mais ao fundo, perto do lago, uma mãe e duas filhas. Uma fazia os trabalhos de casa de português, parecia-lhe. A outra, mais nova, ouvia a história que a mãe que ia contando, comentando as imagens, distraindo, por vezes, a irmã. Se algum dia tivesse tido filhos, tê-los-ia também levado para ali. Agarrou no seu livro e imergiu na leitura. Gostava de ler não importava onde, mas ali era o local onde mais prazer lhe dava fazê-lo. Não sabia se pelo desenho do jardim, se pelo lago, se pela vegetação, se pelo edifício em si a exalar cultura instalado no jardim – mas era ali que mais gostava de desfrutar do prazer de viajar… e namorar.

Estava apaixonada. Desejava ardentemente fazer parte da ação do livro, ter a oportunidade de conhecer aquela personagem que tanto lhe agradava. Era uma personagem fascinante, carismática. Tinha uma personalidade forte, era determinada e perseguia os seus sonhos para onde fosse preciso. Já viajara muito e conhecera muitas culturas e pessoas. Pensara-se preenchido. Mas quando regressava a casa, encontrava sempre o silêncio, péssimo ouvinte. Não fazia perguntas. Não acenava com a cabeça. Não sorria. Não se assustava. Sabia que faltava qualquer coisa na sua vida. Só não sabia como alcançá-la. Foi então que, num congresso sobre Art Nouveau, em Barcelona, conheceu uma rapariga. Vestia calças pretas justas e uma camisola preta que lhe acentuava as suas formas femininas. O cabelo claro contrastava com o escuro da roupa, assim como o colar de várias cores pendurado ao pescoço. Repousando no seu colo, um caderno de esquiços semipreenchido. Um sentimento de inveja invadiu-a. Mas imediatamente o repeliu ao perceber o ridículo da situação.

Pousou o livro sobre as pernas, o dedo indicador a marcar a página da leitura interrompida. Era um pouco assim que se sentia. Perdida. À procura da felicidade, fosse lá o que isso fosse. A música, a leitura, aquele espaço ofereciam-lhe momentos de felicidade. Mas era sempre passageira… e solitária. Começava a questionar-se se seria realmente feliz… Sempre gostara da sua independência, mas havia qualquer coisa nela que estava a mudar, que a inquietava. Os amigos tratavam-na por Lu, uma alcunha carinhosa, por acreditarem que vivia no mundo da Lua. Era uma sonhadora nata, mas tinha momentos em que se cansava de perseguir esses sonhos etéreos que nunca lhe davam nada de concreto. 

Quando a noite começou a cair, dirigiu-se para o local onde a orquestra, já num conjunto harmonioso, iria tocar. Uma jovem lindíssima dedilhava com gestos angelicais uma bela harpa e um homem, de pé, soltava gemidos do seu contrabaixo. Sempre gostara de cordas. Dos sons graves e agudos que tão bem traduziam os estados das almas. Lu acreditava que as almas dançavam, hipnotizadas, presas nas cordas dos instrumentos e que os músicos eram os únicos feiticeiros capazes de contactar verdadeiramente com elas. Só estes, através da sua arte, conseguiam que estas soltassem os seus gemidos, os seus suspiros, às vezes os seus gritos, e as suas gargalhadas. E, naquela noite, elas preparavam-se para o baile.

Começaram os violinos, os arcos todos a deslizar ao mesmo tempo. Era mágico. Ao longe, a harpa amparava as almas em queda, enquanto os violoncelos atapetavam o ar com o cheiro da noite, num convite à dança quase tribal. O ritmo ia-se acentuando, instigado pelos trompetes, lágrimas que queimavam os pés de todos os que tentassem atravessar aquele lago de sons.

Foi então que Lu se sentiu abraçar. Inesperadamente, um som ancestral, quase épico, de uma gaita-de-foles ecoou pelo ar, roçou os ombros dos ouvintes, penetrou-lhes o coração, encheu-lhes o peito de ar, de cor, de dor. Lu sentiu duas grossas lágrimas rolarem pela sua face abaixo. Sorria, num misto de terror e alegria. Sem forças, fechou os olhos, os braços descaídos, e, abrindo a mão direita, deixou-se levar. Compreendia agora o que tanto a inquietava, porque nunca fora totalmente feliz. E chorava de emoção, de tristeza e, ao mesmo tempo, de paz, por finalmente se ter reconciliado. Era ele. Sentia-o. Dançava para si, uma dança dolorida, como que a pedir desculpa. 

Algures, no passado, deixara o amor para trás. Sempre precisara de uma relação que a preenchesse, mas o homem por quem se apaixonara não lha tinha conseguido dar. Vivia embrenhado na música e a sua vida era dividida entre ensaios, concertos, jantares, viagens. E às vezes ela. Sabia que era amada (oh, se sabia…), mas também sabia que não conseguiria partilhar assim a vida com alguém para sempre. E acabou por se afastar do que de mais bonito e verdadeiro lhe acontecera. 

Mas, agora, já nada mais importava. Estavam de novo juntos, desta vez a música a uni-los, duas almas felizes, numa dança amorosa de braços que percorrem o corpo com suavidade, de lábios que se tocam para fazerem o amor acontecer novamente, de olhares que não se conseguem desviar, de abraços que soltam o perfume há tanto tempo desejado… para sempre…
 
(SV)
 
 
 



… um café bebido, onde adormece, mergulhado, um pequeno pau de canela… o barco a remos que se deixa arrastar, silencioso, pela corrente deste rio que me sussurra no luar da manhã… a pequenita, que caminha de forma trôpega, sobre os patins de plástico, azuis, rosas
 

(Sabes, menina, voarás um dia…)

 
…as mãos dadas, ainda transparentes da manhã íntima em que acordaram… o saxofone que chora nas paredes brancas… as elegantes pernas que pedalam nas velozes bicicletas… a máquina fotográfica que pestaneja, bocejante


(clic…! clic…!


 os bebés que sorriem

(devem ser sorrisos, de certeza)

 enquanto o olhar da mãe os aconchega e os leva nestes úteros de pano e rodas feitos… os cacilheiros, os velhinhos e laranjas cacilheiros que cumprem o seu destino marítimo… o beat que me faz dançar nesta cadeira de ferro


(Porque olham para mim, de lado, assim…?)


… o teu corpo que se espraia nestas suaves ondas onde procuro esquecer a palidez de dias cinzentos, melancólicos… 
 
 



… os dias em que
não se pensa…
 
 
(PM)

 

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