quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Dois Textos... Uma imagem...


A mesma metade do sol
 

Sem saberes, vi-te outro dia, à noite, quando passeavas na mesma metade do Sol que eu. Evitei o encontro, pois queria olhar-te, na penumbra apenas iluminada pela Lua. Estavas sereno, o olhar perdido na outra metade do Sol. Onde estariam os teus pensamentos? Observei os teus movimentos, lentos, enquanto apanhavas uma pedra do chão. Como se houvesse um lago à tua frente, lançaste-a e contei três saltos! Nada mal! Uma aragem fez ondular a tua camisa e quase podia jurar que senti o teu aroma colar-se-me ao nariz. Estavas tão bonito, sentado naquela rocha, a Lua a incidir sobre ti.

Sem saberes, nessa noite levei-te a passear comigo na mesma metade do Sol. Agarrei na tua mão e levei-te para a berma do lago, onde te pedi que me ensinasses a lançar pedrinhas. Procuraste uma pedra achatada, colocaste-a na minha mão e mostraste-me como lançá-la, o teu corpo encostado ao meu, o teu perfume na minha pele. Não me lembro de quantos saltos deu a pedra. Só o teu aroma existiu nessa noite. Só o teu toque. O teu sorriso. O meu desejo.

Sem saberes, nessa noite despertei, o meu sonho ainda vivo, a clamar por ti. Levantei-me e decidi procurar-te. Segui as pegadas que atravessavam o lago imaginário, muitas pedrinhas deitadas no seu leito e segui o rasto da Lua que me levou até à fronteira. Aflita, avistei-te ao longe, do outro lado da metade do Sol. Sob a luz clara, tinhas um ar feliz. Deitei-me no chão e fui ter contigo num sonho-ponte, onde me abraçaste à luz da eternidade e te ouvi dizer que para sempre ficaríamos na mesma metade do Sol.

E, sem saberes, para sempre ficámos na mesma metade do Sol…
 
 
(SV)
 
 
 
 
 
A mesma metade do sol
 
 
Recordo-me da forma como caminhavas para mim. Trazias um brilho infinito nos olhos. Vinhas de mãos estendidas. Pedias-me um abraço. Em silêncio, com um sorriso. Escorriam, pelo teu


cor
po,


 pequenas gotas de orvalho de uma manhã que findara num suave espreguiçar. Como num pequeno jogo-distância do
 
toque
e
foge,

 
refugiavam-se nos esguios contornos do corpo que te adivinhava. Vestias o amarelo e o laranja-vento.

Sim. Recordo-me do fulgor do teu olhar cintilante no momento em que paraste. Banharam-me os teus olhos, aqueceram-me as tuas mãos. Inundou-me o sol que trazias, agora adormecido. Levaste-o aos meus lábios. E partiste em pequenas notas musicais. 



Invisíveis danças de luz.

 Ficou-me o sabor a sol.
 
(PM)
 
 
 
 

 
Claude MONET, "San Giorgio Maggiore at Sunset"

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