domingo, 23 de junho de 2013

Uma Imagem, Dois Textos...


Nicolas de STÄL, "Mediterranée la Ciotat"
 
 
Foi num dia assim 

Da janela do meu quarto vejo tudo. O branco das casas, o azul do mar ao longe, o vermelho dos telhados, das publicidades, dos automóveis, o amarelo do sol, dos toldos, dos sorrisos de quem passa. Tenho observado que as pessoas estão cada vez mais amarelas, já nem sorriem como deve ser quando cumprimentam outros. A minha vizinha de cima, com quem raramente falei, acenava-me sempre quando passava em frente à minha janela. Gosto de a observar. É bonita. Tem cabelos castanhos curtos, um corte moderno, as pontas ligeiramente mais alongadas à frente. Realça-lhe o olhar doce, aquele penteado, e o sorriso perfeito com que me presenteia quase todos os dias. Ou presenteava. Porque de há uns tempos para cá vejo-a passar cabisbaixa, o olhar preso ao chão, uma mão pesada que se eleva para me cumprimentar. Soube há dias que perdeu o emprego. Gostava de lhe dizer que há coisas piores. Aqui no prédio, já várias pessoas estão nessa situação. Tenho ouvido comentários de vizinhos que param à porta a conversar. Situações difíceis, as que se vivem por trás dessas paredes, em silêncio. Quantas pessoas se dobram, à noite, não com o frio, mas com a fome?

Da janela do meu quarto vejo tudo. As pessoas que partem para o trabalho e as que vão para a praia, roupas leves, toalha no pescoço, o mar no olhar. O mar... Tenho tantas saudades do mar, da areia fresca nos meus pés, do sol na minha pele. Tenho, sobretudo, saudades das ondas, das pequenas e das montanhosas, por entre as quais gosto de mergulhar. E das brincadeiras com os meus amigos. Como naquele dia em que eu e os meus amigos da escola fomos todos para a praia...

Naquela tarde, o calor convidava toda a gente a imergir, só apetecia estar em estado líquido, misturarmo-nos com as ondas, sermos ondas. O almoço foi repartido em múltiplas refeições para assegurar que pudéssemos passar o dia na água. O mar estava tranquilo e albergava mais pessoas que peixes. Acho que toda a população da zona tinha escolhido a praia como destino, nesse dia. Tirámos imensas fotografias. A mais engraçada foi quando tentámos fazer uma pirâmide humana no mar. Eu fiquei por baixo, com o Zé e o Nuno, a suportar o peso que ia aumentando à medida que as raparigas iam tentando trepar. Não ficou muito grande, mas ainda merecemos uns aplausos de algumas pessoas e umas valentes gargalhadas quando a Lia levou com uma bola de praia na cabeça e se desequilibrou ao tentar agarrá-la! Atrás dela caímos todos! Também foi engraçado quando o Rui, com subtileza, colocou sobre as suas costas uma barbatana de tubarão de plástico que conseguiu assustar muito boa gente! Como as pessoas gritavam! Eu também fui dos que saíram da água, incrédulos e assustados. Ouviam-se já comentários de que a temperatura das águas tinha subido consideravelmente, de tal modo que até atraíra tubarões para a costa. Algumas pessoas riram-se quando perceberam o que se passava, mas houve muitas que injuriaram o Rui. Recordo-me em particular de uma criança que chorava imenso. A determinada altura, as atenções concentraram-se nela. A criança, de uns três ou quatro anos de idade, soluçava e tremia, agarrada à mãe, que a apertava contra o peito num abraço do tamanho do mundo. Mas nada a conseguia acalmar. Num ímpeto furioso, a senhora dirigiu-se ao Rui, que ria desalmadamente, desfez o abraço e mergulhou na face dele a força do universo projetada na sua mão. O mundo ficou suspenso, ninguém sabia se os astros permaneciam no mesmo sítio, tal a violência do estalo. E então, alguém gritou:

          - Olha! A pequenina calou-se!

E o mundo voltou a girar sem ninguém se importar com a mancha vermelha que se intensificava na face do Rui. Saímos dali e dirigimo-nos para umas rochas que havia mais ao longe. Tínhamos uns quinze, dezasseis anos e nessa tarde comemorávamos o início das férias de verão. Achávamo-nos os maiores do mundo e agora tínhamos um motivo para gozar com alguém. O Rui, que por momentos fora o rei do grupo, era agora a chacota de todos.

Contudo, rapidamente esquecemos o Rui. Tínhamos um monte de rochas para trepar e a nossa preocupação era saber quem chegava primeiro ao topo. Já lá havia uns miúdos, que saltavam para o mar. E nós queríamos experimentar. O Zé foi o primeiro. Ainda me lembro do seu grito, a adrenalina no máximo, as pernas e os braços encolhidos, o cabelo revolto, o som do corpo a cair na água. Lembro-me do meu coração parar quando ele mergulhou e de só voltar a senti-lo quando ele veio à tona da água, os braços no ar, na garganta um grito de satisfação. Aos poucos fomos todos saltando, numa alegria infantil de quem sabia que estava a fazer coisas perigosas, que os nossos pais desaprovariam porque são chatos e velhos. Por algum motivo que desconheço, fui-me deixando ficar para o fim. Todos os meus amigos já estavam lá em baixo quando decidi saltar. De alguma forma, eu sabia que tinha medo, mas não podia permitir que os outros soubessem. Até a Rita, que é uma medrosa, que grita por tudo e por nada, foi das primeiras a saltar. Não podia ficar atrás. Uns miúdos que estavam por ali, a preparar-se para saltar, começavam a olhar para mim com risinhos de troça. Não podia permiti-lo. 

Então decidi-me. Aproximei-me da berma e, sem pensar, atirei-me, os braços abertos, as pernas esticadas, os olhos fechados, o coração aos trambolhões, o sangue congelado, o corpo a rasgar o vento como um pássaro. Um pássaro em queda livre. Não, isso não era bom sinal. Imaginei-me então uma águia a atacar a sua presa, uma gaivota a dirigir-se àquele peixe incauto, a mergulhar, a perfurar aquela superfície de cristal líquido. Primeiro os pés, um frio molhado, a água a passar por entre os dedos. Depois as pernas, o tronco, a cabeça, a água a entrar pelo nariz, pela boca. O corpo a descer, a descer, uma sensação de leveza, de liberdade. Sentia-me agora um peixe a mergulhar nas profundezas, a esconder-se dos predadores que, lá em cima, se atiravam no vazio para me apanhar. Era um ambiente fantástico, o aquático, com as suas algas ondulantes, quais bailarinas dançando a dança do ventre sem qualquer pudor. Deixei-me ali ficar, a olhar para elas, como um peixe hipnotizado, os seus braços estendendo-se aos poucos, abraçando-me, puxando-me para si, chamando por mim...

          - Fernando! Fernando! Acorda, Fernando!

          Abri os olhos. À minha volta os meus amigos chamavam por mim, na voz o rosto do susto.

          - Estás bem? Mergulhaste e não voltaste para cima. O Zé o Rui tiveram que te ir buscar. Estás bem?

Se estava bem? Claro que estava bem. Sentia-me cansado, pesado, mas ainda não tínhamos parado o dia todo. Apetecia-me beber água. Já não queria mais saltos. Apetecia-me a minha toalha, o sol, o calor... Apetecia-me... mexer-me.

          - Então, Fernando? Não vens? Estás à espera que te levemos ao colo?

Queria tanto mexer-me. Levantar-me. Ir para a minha toalha. Queria tanto. Tanto... Foi num dia assim, de calor, sol, brancuras que feriam as vistas... Foi num dia assim...
 
(SV)
 

 

 
 
Tum… tum… tum… tum… tum… tum… tum…
 
Chama-me um tambor. Algures. Pequeno. Sinto-lhe o coração ritmado. Há um céu escuro que se abre.
 
Tum… tum… tum… tum… tum… tum… tum…
 
 
Caminho. Caminho nesta incerteza de uma qualquer perdição que me puxa. Há momentos em que me debato. Outros há em que simplesmente me deixo arrastar. Horizonte. O horizonte. Este Horizonte de nuvens vermelhas. Corre, de súbito, o sangue de deuses enlouquecidos por uma dor lancinante ao longo deste Céu-Parede. A crescer. Imenso. A envolver-me num abraço que estranhamente desejo. Calor súbito. Formam-se pequenas ondas ao longe. É nelas que Caminhas. Que Flutuas. Como uma brisa que arrefece, uma ilusão feita de pequenos
 
(tão pequenos e curtos)


segundos, num qualquer momento em que as lágrimas me sabem a lava, a fel. Trazem-me estas ondas a sombra de um reflexo que me amedronta, que evito.
 
… Leva-me… leva-me (grito!)

Apenas assim. Em mares de azul-inocência.
 
O tambor, agora. De novo. Tum… tum… tum… tum… tum… tum… tum… Volto à minha varanda. Tum… tum… tum… tum… tum… tum… tum… Correm os cães na estrada de terra batida. Levanta-se uma poeira malabar. De língua de fora, perseguem uma meia que se ergue no ar, assustada. No ar, empertiga-se, eleva-se. Perante a arrogância de tal gesto, os cães agitam-se de forma-lobo. Saltam, rodopiam no ar. E cansados, regressam. Tum… tum… tum… tum… tum… tum… tum… Param. Espreitam a varanda lá no alto. O tambor. Há uns braços que se agitam. Fogem, agora, amedrontados. Acelera-os mais o silvo do comboio que agora surge, negro, fumegante. O maquinista, de chapéu vermelho na cabeça, grita-lhes da sua pequena janelita de ferro. Eiii hô…! Eii hô…! E continua, pensando nas linhas da sua vida em linhas de ferro ardente. Fico. Nesta ânsia, a vê-lo partir, num rasto de fumo que se dilui com o horizonte. O retorno agora. Os pensamentos-restos. No chão há um perfil negro que me observa.
 
… Corre… corre (grita!)
 
Apenas assim… Em mares de azul-inocência.
 
(PM)


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