terça-feira, 30 de abril de 2013

Uma Imagem, Dois Textos...

 
Jos van RISWICK, "Still Life Apple Dark"


A Branca de Neve

 A senhora Maria era uma mulher já idosa, muito falada na aldeia onde vivia, por ter uma aparência muito jovem, nada em conformidade com a idade que realmente tinha. As vizinhas invejavam a sua pele branca, macia, quase sem rugas, que enaltecia o brilho do seu sorriso perfeito, que tantos corações tinha partido nos seus tempos de juventude. Ainda hoje, o seu recente estado de viuvez era disputado por alguns homens da aldeia, desejosos de apanharem a mais bela mulher de que havia memória.

Quando jovem, ninguém a tratava pelo seu nome. Se se queria falar da mais bela rapariga de Portugal, falava-se da Branca de Neve! Elegante, cabelo escuro, pele branca, dentes perfeitos – só podia ser ela! Marias há muitas; Branca de Neve só há uma!, costumavam dizer as gentes da aldeia.

Fora muito cobiçada, mas, como geralmente acontecia na época, não casara com o seu príncipe encantado, um rapaz sem riquezas cuja única fortuna eram duas macieiras! O pai almejava melhores dias para a filha e para si e prometeu-a a um rapaz, dono de muitas terras e que desde pequeno se embeiçara pela sua Maria. Contrafeita, mas sem força para contrariar o pai, casou-se com o ricaço. Na véspera do dia do seu casamento, o seu príncipe encantado arranjou  maneira de se encontrar com ela para lhe oferecer o seu presente de casamento: uma macieira. Assim, ele estaria sempre perto dela e facilmente ela colheria um beijo seu. Sem dizer nada a ninguém, plantou a macieira no seu quintal, que se fez grande e uma excelente produtora de maçãs. Todos os dias, a Branca de Neve colhia uma maçã e comia-a devagar, como se a beijasse. E desde então, decidiu que a única fruta que comeria seriam maçãs, em homenagem ao seu grande amor.

Mas o tempo foi passando e o seu príncipe encantado acabaria por casar com uma mulher trigueira, pobre como ele, mas muito trabalhadora. Não a amava e antes de contrair matrimónio com ela contou-lhe a sua história e explicou-lhe que não lhe poderia dar o seu coração, apenas o seu afeto, o seu respeito, a sua cumplicidade, a sua amizade. Mas não o seu amor. Ela compreendia e disse-lhe que para ela isso já era amor, uma vez que o que ela sentia por ele incluía tudo isso. E casaram-se. A Branca de Neve, na altura, ficou furiosa e durante uns tempos deixou de colher maçãs. Mas, um dia, ouviu dizer que o seu príncipe casara sem amor, e voltou a comer as maçãs.

Um dia, eram já onze horas da manhã, quando a ti Mélia das Rolas lhe bateu à porta. Mandou-a entrar e ofereceu-lhe pão com queijo. A outra recusou, ainda olhou para uma maçã vermelha que estava em cima da mesa, tão luzidia, tão apetitosa, mas não ousou pedir-lha. De qualquer forma, a ida dela ali era por um motivo urgente e triste e não havia tempo a perder. O ti Tó Coxo viera há pouco do lameiro e encontrara, na terra das Verdes Árvores, o seu marido, caído no chão, debaixo do trator. Devia ter virado ao tentar passar por cima de uma pedra. Parecia que tinha batido com a cabeça e não dava acordo de si.

- A ambulância deve vir a caminho... A ti Xica telefonou a pedir uma. Tenha calma, senhora Maria.

Por uma razão que ninguém conseguia explicar, desde que casara que sempre a haviam tratado por senhora Maria e nunca por ti Maria, como era comum naqueles sítios. Sem que se houvessem apercebido, a sua beleza sempre a havia distinguido de todos e toda a gente a respeitava por ser a mais bela mulher que conheciam.

Perante tal notícia, a Branca de Neve ficou imóvel, o olhar fixo na maçã pousada em cima da mesa da cozinha. No seu espírito, uma ideia apenas: estava finalmente livre!

Durante uma semana, toda a aldeia lhe veio bater à porta para lhe dar os sentimentos e oferecer a sua ajuda que, orgulhosamente, ela ia recusando. Estava velha, mas não acabada, dizia. Ainda era capaz de fazer a sua vida sozinha. No dia do funeral, o seu príncipe e a sua esposa abeiraram-se dela e delicadamente deram-lhe os pêsames. O seu coração bateu com toda a força quando sentiu os lábios dele tocarem na sua face, os seus dedos procurarem, ao de leve, a sua mão. Ia jurar que o seu olhar continuava ainda intenso e brilhante como antes e a primavera entrou nesse momento no seu coração sem aviso prévio, abrindo portas que ela desconhecia existirem dentro de si.

No dia seguinte, a Branca de Neve saiu cedo de casa e foi procurar o seu amado aos campos onde sabia que este costumava andar. Quando o viu ao longe, curvado, a enxada nas mãos, emocionou-se e deixou uma lágrima rolar-lhe pela face. Aproximou-se devagar até ele dar pela sua presença. Durante uns instantes ficaram a olhar-se, o passado no meio dos dois, a uni-los. Ele pousou a enxada e dirigiu-se para ela, o coração num reboliço, os lábios a tremer com medo que as palavras erradas saíssem. Abraçaram-se longamente. Por fim, ela disse:

- Estou livre...

- Mas eu não... – murmurou ele, baixando os olhos.

Aquelas palavras soaram a estaladas, desfizeram em pedaços o sonho de uma vida inteira, empurraram para um abismo a razão de ser de uma vida. Branca de Neve olhava para ele, a incredulidade no olhar.

Ele comprimia os lábios, fechava a porta às palavras, mas estas acabaram por encontrar o buraco da fechadura:

- Não posso abandonar a mulher que me aceitou mesmo sabendo que não era amada, que me dedicou toda a sua vida. Tenho uma dívida de gratidão para com ela. Amo-te, mas não sou livre para partilhar o meu amor contigo...

Ela não queria acreditar no que acabara de ouvir.Também ela lhe dedicara toda a sua vida, vivera presa ao seu amor, alimentara a chama do desejo todos os dias, junto da macieira que ele lhe oferecera. Afinal, ela não valia nada? A recompensa por uma vida de dedicação era esta? Regressou a casa cabisbaixa, remexendo nas feridas, sentindo a dor, saboreando o ódio.

Nessa noite, ao deitar-se, teve uma ideia. No início achou-a horrível e afastou-a do pensamento. Mas, aos poucos, esta foi tomando forma e, de tanto pensar nela, começou a achá-la menos terrível.

Na manhã seguinte, levantou-se e foi ao quintal colher uma maçã. Na noite anterior estivera a comer um carapau e guardara as espinhas para o Caça Ratos, o gato preto que lhe fazia companhia há mais de dez anos. Cortou algumas espinhas e espetou-as, com cuidado, na maçã. Era importante que não se notassem.

A meio da manhã, dirigiu-se a casa do homem que lhe partira o coração. Sabia que àquela hora não estava lá. Bateu à porta. Uma mulher trigueira abriu-lha.

- Branca de Neve?! – exclamou surpreendida. – Aconteceu alguma coisa?

- Não. Estive a colher maçãs da minha macieira. Ia levar uma cesta delas à ti Pita e lembrei-me de parar aqui para lhe oferecer a mais bonita da cesta. Vocês foram tão amáveis comigo...

- Obrigada. Não quer entrar?

- Não, obrigada. Vou andando. Então vá, adeus!

E seguiu o seu caminho. Quando a outra já não a podia ver, arrepiou caminho e regressou a casa. Agora era só esperar.

À noite, os sinos da igreja repicaram incessantemente. Nervosa, aguardou que alguém passasse lá por casa, a contar-lhe a novidade. Quem apareceu foi a ti Ana das Maçãs!

- Mas... Eu ouvi os sinos... Quem é que?... – gaguejou surpreendida a Branca de Neve.

- O meu marido – respondeu a ti Ana das Maçãs, as lágrimas grossas a escorrer pela face, o ódio a faiscar nos olhos. – Achei estranho ir lá a casa oferecer-me uma maçã. A senhora Maria nunca ofereceu as suas maçãs a ninguém – porquê a mim? E deixei-a ficar em cima da mesa. Quando regressou do campo, o Zé viu-a... Eu não estava em casa... Começou a comê-la, deve ter-se engasgado... Não sei... Quando cheguei a casa, estava morto... A mim, ninguém me tira a ideia de que a culpa foi sua!... Qual Branca de Neve! Devia chamar-se Bruxa Má, isso sim!

E saiu, deixando a Branca de Neve mortificada, mais branca que a própria brancura da sua pele. O boato foi-se espalhando e a Branca de Neve, aos poucos, deixaria de ser conhecida pela sua beleza para passar a ser conhecida pela sua maldade. A macieira do seu quintal secaria ao fim de pouco tempo e com ela a beleza que a coroara rainha durante tantos anos...
 
(SV)
 

 



Poderia começar assim:
 
“Era uma vez uma maçã. Vermelha. Brilhante. Vestida do sorridente orvalho da manhã. De uma manhã azul. Preguiçosa, tão sonolenta ainda.”

 Poderia pensar na macieira ao lado da estrada sobre a qual caminham pessoas dobradas sob o peso de grandes sacos de feno, dos elegantes cavaleiros que com eles se cruzam, cujas armaduras reluzem a caminho de um qualquer castelo tenebroso, escuro, guardado pelo dragão de três cabeças (típico…‼) a vomitar fogo por todo o lado (por ser tão perigoso seria antes… “por todos os lados!”), enquanto os gritos histéricos de uma dama encerrada no topo de uma masmorra (felizmente!) ecoavam por todo o sofrido vale. Não deveriam ser assim os gritos nem a dama deveria estar assim fechada. Mas nesta história que começaria por “Era uma vez uma maçã. Vermelha. Brilhante.” são. Histéricos. Fingidos. E agrada-me “caprichosos”.

Mas não sei como começar esta história, há quem diga “estória”. Olho apenas a pequena porta por onde vou entrar daqui a pouco. Recordo o céu azul que lá vejo, as duas palmeiras que se elevam e quase o cumprimentam. Penso, então, que a história poderia começar assim:

 
 “Era uma vez uma Maçã. Vermelha. Brilhante. Ainda que o sorridente orvalho a vestisse, a maçã vivia muito infeliz numa árvore ao lado de uma estrada cheia de lama por onde passavam pessoas dobradas pelo peso de sacos de feno, observados por cavaleiros de armaduras amarelecidas pelo fogo vomitado por dragões caprichosos e mal dispostos. A Maçã olhava, ao fundo, ansiosa, as duas palmeiras que se encontravam no horizonte irregular. E sorria. O seu maior sonho era conhecer um Coco. A sua avó contara-lhe que em Tempos Idos um valente Coco vencera um exército de infames lagartas que tinham querido destruir o Mundo-Vermelho mas que os Deuses desses esbranquiçados e rastejantes seres tinham arranjado maneira de nunca ser possível o convívio entre Maçãs e Cocos (quanto mais o íntimo..!) No seu sorriso, a Maçã imaginava a alegria fruto da sua união com um valente Coco. E por todo o lado se sentiria o sabor e o cheiro a maçãcoco.”

Olho a marcha marcial e cruel dos ponteiros do relógio que me sorriem com desdém. O homem da bata azul observa o ecrã preto cheio de estranhas letras, como se nada lá existisse. De vez em quando surgem imagens decerto retiradas de um qualquer filme de sci-fi, repletas de profundas cavernas voluptuosamente guardadas por malévolos seres peçonhentos, os temíveis, os tão terrivelmente temíveis Az Edos. E recordo a maçã e a história. Que poderia começar assim:
 
“Era uma vez uma maçã. Vermelha. Tímida. Ninguém a escolhia. Ninguém perdia tempo a contemplá-la (quanto mais desejá-la…!). O que ninguém sabia é que esta maçã guardava um segredo. Ou antes, O segredo! Quando chegava a noite, ela vestia Brisa da Tarde Ainda A Cair e transformava-se na… na… tcham!… tcham…!… na Super-Maçã (poderia ser mais pomposo mas nesta história não!). E a Super-Maçã logo voava alto alto para subitamente mergulhar nas profundas cavernas habitadas pelos temíveis (oh! Quão terrivelmente temíveis…!) Az Edos. Das suas mãos (nesta história tudo é possível…) saíam, como por magia, brancos raios de sumômaçã, que logo reduziam os temíveis (afinal, não eram assim tão fortes!) Az Edos a puré-de-nada. E a Super-Maçã voaria à volta do Mundo-Vermelho, sempre atenta, à procura de quem amasse o mal e dele fizesse o seu coração. E sorria, depois, na árvore, ainda que ninguém a contemplasse (quanto mais desejasse!).

Trago no pensamento o som das estradas que correm em mim de vermelho. Nas mãos seguro a solitária cumplicidade de uma independência que ora me liberta ora me aprisiona em ácidos tentáculos. Revejo os poderosos raios de sumômaçã, brinco com os pequenos maçãcocos (ou pequenas…?) enquanto o céu, hoje, se banha num mar azul, quente, levemente embalado em esteiras de algodão.

Olho a maçã. Esta maçã. Não sei ainda como vou falar dela. Poderia começar assim:

 
“Era uma vez uma maçã. Vermelha. Brilhante. Vestida do sorridente orvalho da manhã. De uma manhã azul. Preguiçosa, tão sonolenta ainda…”.



(PM)
 

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