sábado, 12 de janeiro de 2013

Uma Imagem, Dois Textos...

 
IZJ (de acordo com a assinatura do quadro), "Sem nome"
 


 
 
O príncipe
 
 
Tirara umas férias do seu cansativo trabalho das passerelles. Ela sabia que, para muitas pessoas, o seu trabalho não tinha grande valor. Não tinha que pensar, não fazia esforço físico, apenas tinha que “passear” e exibir roupas a que poucos teriam acesso. Trabalhava para e com a beleza, rodeava-se de glamour e ajudava a vender sonhos e revistas. Mas era uma vida cansativa, cheia de intrigas, de sorrisos muitas vezes forçados, de restrições, de poucos amigos e muitos interesses.
Quando iniciou a carreira, aos dezassete anos, adorava a luz da passerelle, os flashes das máquinas fotográficas, para quem gostava de sorrir, e sobretudo as festas que a sua empresa promovia. Eram a sua oportunidade de conhecer pessoas novas, de entrar no meio, de brilhar. Ela era bonita. Os seus cabelos loiros, os seus olhos azuis e o seu sorriso perfeito eram o passaporte para ser fotografada por inúmeros fotógrafos e para muitas pessoas (especialmente masculinas) quererem posar ao seu lado. Por isso, no início, ia às festas sociais com alegria e muita expectativa. Vestia o seu melhor vestido, pedia ao seu cabeleireiro o mais belo penteado, calçava uns altíssimos sapatos a condizer com a toilette e lá ia ela, cheia de boa disposição.
Mas tudo isso começava a cansá-la. Eram poucos os amigos que conseguia manter. As raparigas, mais tarde ou mais cedo, acabavam por se cansar de ficar à sua sombra e afastavam-se. Os homens tinham sobretudo um objetivo: gabar-se de que a tinham conquistado. E quem acabava por se afastar era ela. Começava a sentir a necessidade de encontrar alguém em quem pudesse confiar, com quem pudesse partilhar as suas alegrias e os seus medos. Inicialmente, acreditava que nessas festas encontraria o seu príncipe. Nada sabia dele. Apenas o seu nome. Quando os seus pais morreram num acidente de viação, tinha ela dezanove anos, ela tivera que arrumar os seus haveres. Numa gaveta do quarto dos progenitores, ela encontrara um caderno onde a sua mãe ia anotando pensamentos, ideias, acontecimentos, uma espécie de diário. E, numa das páginas, a mãe registara o nome do homem com quem a filha se casaria um dia. Não havia fotografia, apelido, morada, nada. Apenas o primeiro nome. Ficara estupefacta! A sua mãe nunca tinha comentado nada com ela e não se lembrava de ela alguma vez ter acreditado em bruxas ou pessoas do género. Não fazia a mínima ideia de como a mãe “descobrira” o nome do seu suposto noivo. Mas o que era certo era que a mãe o escrevera. E ela, sem conseguir explicá-lo, acreditou no que lera, de tal forma, que decidiu que só casaria com um homem que tivesse aquele nome. Não sabia como o reconheceria, mas cria que quando os seus olhos se cruzassem ela saberia distingui-lo no meio de todos os outros.
Contudo, o tempo foi passando e ela nunca se cruzou com ele. O seu ânimo foi esmorecendo e já todos comentavam a sua doença, o seu andar menos balançado, a sua cabeça menos altiva, o seu sorriso mais apagado. Para umas revistas, ela estava com uma depressão profunda; para outras,  ela tinha um cancro, e as férias solitárias que acabava de tirar eram a prova disso.
Na verdade, decidira ir à procura do seu príncipe. Era óbvio que nunca o encontraria no seu círculo de conhecidos, por isso, nada melhor do que uma viagem para conhecer pessoas diferentes, forçar o destino.
Nessa tarde, optou por permanecer na piscina do hotel. Sentada numa chaise-longue, com os seus óculos escuros, ia lendo um livro enquanto observava os gestos e o olhar de cada homem presente. Como o tempo estava quente, ainda deu uns mergulhos na piscina, onde travou conhecimento com um espanhol. À noite, permaneceu algum tempo no bar do hotel, onde um saxofonista tocava quentes e solitárias melodias.
No dia seguinte, decidiu ir à praia. Era um local mais amplo, onde circulavam mais pessoas e por onde ela poderia passear e procurar mais à-vontade. No entanto, era também mais difícil fixar o olhar de todos os homens com quem se cruzava. Um jovem ainda a abordou, perguntou-lhe as horas e o local de onde se conheciam. Era bonito e simpático, mas tinha o nome errado. Assim como os outros quatro com quem entabulou conversa.
O seu terceiro dia de férias passou-o a ver museus, quadros fantásticos, estátuas deslumbrantes, jardins magníficos. Foi discretamente seguida por um paparazzi, que tirou uma bombástica fotografia da modelo a conversar e a rir com um homem, jovem empresário brasileiro, o seu novo namorado, segundo a imprensa.
No quarto dia, andou a passear pela cidade. Entrou numa livraria, onde, sem querer,  chocou contra um homem alto, loiro, de olhos azuis, penetrantes, um ar jovial. Pediu desculpa e não conseguiu dizer mais nada. Havia algo de magnético no seu olhar. Era bonito e foi com dificuldade que desviou os olhos, para, logo a seguir, voltar a pousá-los naquela figura atlética. Decidiu aproximar-se, deixar cair um livro aos seus pés, apresentar-se. Mas foi uma desilusão quando percebeu que era estrangeiro, mais propriamente inglês. Nunca gostara de estudar outras línguas, sempre detestara inglês e nunca se esforçara por o aprender. Como estava arrependida! Quem sabe se aquele não era o seu noivo predestinado! Foi com horror que o viu afastar-se sem conseguir saber sequer o seu nome!
O resto da semana passou-a na livraria, na esperança de voltar a cruzar-se com o inglês. As hipóteses de ele voltar ali não eram muitas, mas não sabia onde mais havia de procurá-lo.
Ao fim de uma semana, as férias terminavam e ela estava desanimada. Nunca mais encontrara o inglês e não conseguira, entretanto, conhecer mais ninguém que provocasse nela a alucinante aceleração do ritmo cardíaco que sentira na livraria. Restava-lhe essa noite para cumprir os objetivos que a haviam levado àquele local.
Assim, depois de um magnífico banho relaxante, vestiu o seu vestido preferido e jantou no hotel. Havia um jantar de gala nessa noite, seguido de um baile, e ela queria estar deslumbrante. Havia sempre pessoas a entrar e a sair dos hotéis. Quem sabe o seu príncipe não teria chegado naquele dia? E senão, havia ainda o avião. Quem sabe este não estaria sentado ao seu lado durante a viagem de regresso?
A noite decorreu tranquila. Dançou com alguns homens, mas nenhum tinha o nome do seu príncipe nem o charme do inglês.Terminava assim as suas férias sem sorte na sua busca.
Dirigia-se para o quarto, já cansada, quando ouviu alguém dizer para o rececionista:
- Can I use the phone, please?
Ela estacou. Teria ouvido bem?
- Yes, you can, sir – respondeu o empregado.
Sim, ela ouvira bem. Ele tinha dito Ken! E o empregado confirmara! Finalmente encontrara o seu Príncipe Ken! Emocionada, aproximou-se daquele esbelto homem alto, loiro, de olhos claros, bem vestido, educado. E estacou. Era o inglês! Ele olhou para ela e sorriu. Que sorriso magnífico, franco, alvo! Era ele! Era ele! Ela sentiu que era ele quem ela procurara todos aqueles anos. Esperaria que ele terminasse o telefonema para se apresentar. Estava nervosa, não sabia muito bem como faria para falar com ele. Tentaria a ajuda do empregado. Ele poderia traduzir o diálogo entre eles.  A língua era um entrave, mas ela não poderia, de modo algum, deixá-lo escapar novamente. Nem queria acreditar que ele estava ali, no mesmo hotel que ela, e que nunca se tivessem cruzado!
Assim que ele acabou de falar, ela fez o gesto combinado ao rececionista para os apresentar. Mas nesse momento, aproximou-se uma rapariga ruiva, de corpo bem torneado, com olhos grandes, castanhos, uma boca pequena, muito encarnada, uma pele branca, fina, belíssima, que o abraçou e desapareceu com o seu príncipe no elevador. Ela não podia acreditar no que acabara de acontecer!... Sentiu-se humilhada e desiludida... Era ele o homem da sua vida...
No dia seguinte, a imprensa não falava de outra coisa. Todas as revistas e jornais, com maior ou menor destaque, anunciavam o mesmo. Na revista para a qual trabalhava o paparazzi que a havia fotografado há uns dias podia ler-se: «Modelo Barbie desiste de lutar contra a sua doença e atira-se da varanda do Hotel!»
 
 
(SV)
 
 
 
 
“Que olhos grandes tens tu, avó…!”
É assim que começo por te ver, Menina dos Olhos Grandes. A recordar as velhas histórias que me contavam à cabeceira da pequena cama. Havia sempre uma surpresa no final da história. E eu sorria sempre, feliz. Mais uma vez o Lobo Mau tinha perdido. Sempre imaginei que, anos mais tarde, O Capuchinho cresceria mais depressa e casasse com o Lenhador salvador. É difícil tirar os olhos dos teus, Menina dos Olhos Grandes. Como se me levassem para um lugar estranho. E feito da Pura Ingenuidade com que te observo.
Trazes no cabelo o Outono. Percebo as pequenas folhas que vão caindo, a darem cor à ausência que se seguirá. Revejo essas mesmas folhas a renascerem, a sorrirem. Para voltarem a cair. E fico a pensar no Outono que me assusta
… até pode ser que o Inverno não seja duro, quem sabe…!…
Os teus olhos trazem-me a Magia de viagens feitas em tapetes voadores para locais em que me deixo abandonar naquilo que me dizes, tudo aquilo que me trazes. Os teus olhos, Menina dos Olhos Grandes, os teus olhos. Tens um queixo pequenino, bonito. Os teus lábios parecem duas ameixas. A tua pele é tão branca. Como se fosse possível, à neve, caminhar por etre as árvores que sedutoramente se vão despindo dos seus trajes.
(Sorrio, subitamente)
Vejo a minha mãe com o rosto cheio de farinha, sempre que polvilhava a forma para o bolo que tanto gostava. Tinha sempre muita dificuldade em ver o que estava dentro da pesada taça de vidro um pouco baço onde misturava os ingredientes. Era demasiadamente baixo. Mas havia uma magia na forma como eu percebia a leve alteração de cores quando dialogavam os ingredientes entre si. O momento da mistura dos ovos era sempre um dos que mais queria. Quase que ouvia, nessa altura, as galinhas, no pequeno quintal a preparem-se para nos virem bater à porta, como numa manifestação, a reclamarem sobre esses mesmos ovos que tinham sido retirados sem autorização, vejam lá, sem autorização! Sem autorização!! Depois o açúcar… roubava sempre à socapa (mas as mães veem sempre tudo…) uma bola destas de açúcar com o ovo. E o leite, vertido com cuidado, como uma cascata. E era sempre o chocolate que me extasiava, quando a minha mãe baixava a taça e eu ia percebendo as estranhas pinturas que lá iam ficando. Na boca sentia já o sabor e os meus dedos já tremiam perante a expetativa de saber que a minha mãe me iria perguntar se eu queria aquele resto que ficara na taça de vidro que colocava, de seguida, em cima dos pequenos joelhos
(… acho sinceramente que começou a deixar mais do que devia, em certos momentos…)
Depois via-a a espetar um palito no bolo e imagina que aquilo o iria destruir. Curioso. Também hoje o faço. Todos nós o acabamos por fazer, mais dia menos dia, não é? E continua a ser singular a sensação do sabor dos dedos com sabor a chocolate-infância de um bolo que deixava a cozinha com aquele cheiro típico
 (tão típico)
de um bolo cozido a meio da tarde  para um lanche que parecia nunca chegar. E as galinhas lá continuavam na sua conversa inquieta, de malas-penas ao peito, a adivinharem a pouca vergonhice daquelas com as asas mal alinhadas. A vergonha! A vergonha!
Menina dos Olhos Grandes, há o mar em ti. Vejo-te esguia, dentro da água, a brincar com os coloridos corais que no fundo do mar moram. Daqueles fazes a pequena casa de bonecas por onde nadam, transparentes, os pequenos e brilhantes peixezitos que te fazem cócegas nas mãos cada vez que te tocam. Nos outros, há um forno de uma cozinha toda alegremente equipada
(Mãe, cheira tão bem! Demora muito ainda, mãe? Tenho fome, mãe, queria tanto uma fatia de bolo de chocolate! Mãããeee, vá lá…)
Destes fazes os vestidos com que vestes as bonecas feitas de estrelas do mar e folhas do teu cabelo. Olha como dançam sobre a pista de corais entrelaçados! E é neste navegar que vês, com a traquinice do teu olhar, os marinheiros que se encontram de braços encostados às amuradas dos velhos barcos de madeira que sempre vão chegando ao seu destino, a olharem o Longe Sem Fim. Atiras-lhes um pouco de espuma para cima e eles, lá de cima, imaginam uma qualquer divindade estranha, impossível. Encolhem os ombros, esfregam os olhos e voltam a olhar o Longe, aquele, o Sem Destino. Pensam nos que estão em casa
(Mãe, o bolo está mesmo fofinho, mãe! Posso comer outra fatia, posso…?)
Menina dos Olhos Grandes, tens uns olhos tão bonitos. O que mais gosto neles é a cor. São cor-Viagem.
 
 
(PM)

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