segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...


Georges Seurat,  "Un dimanche après-midi à l'Ile de la Grande Jatte", 1884
 
 
 
O quadro
 
Tinha dois empregos e um sonho: levar a sua namorada de longa data e quase noiva a Paris. Conheciam-se desde crianças, desde que ela se mudara para aquele prédio, com oito anos. As brincadeiras no largo em frente ao prédio proporcionaram desde cedo uma aproximação das duas crianças que, incentivadas pelos comentários dos adultos, se começaram a declarar namorados. E desde então namorados foram ficando. Na escola, pertenceram sempre à mesma turma até que ele reprovou um ano e começou a detestar a escola. Com sacrifício avançou até ao secundário e, após dois anos infelizes no mesmo ano escolar, onde aprendeu a detestar Eça de Queirós, decidiu desistir da escola e procurar emprego. Queria arranjar dinheiro para poder casar com a mulher da sua vida e levá-la a Paris na lua-de-mel. Ela era estudante universitária de um curso de artes, adorava pintura e queria levá-la ao Louvre e a todos os museus, queria ir com ela ver o Sacré-Coeur e pedir a um artista para imortalizar com o seu lápis a beleza da sua Musa. Sentia que não podia adiar por muito mais tempo o pedido de casamento: ela frequentava agora um mundo diferente do seu, tinha novos amigos que só falavam de arte, de pintores que ele desconhecia, de técnicas diversas e, quando estavam todos juntos, acabava por se sentir marginalizado. Não que ela se esquecesse dele, pelo contrário: ela explicava-lhe muitos dos conceitos debatidos e quando falavam de alguma obra, ela recordava-lhe o nome do artista ou o livro onde já lho havia mostrado ou até o momento em que haviam falado dele. Ele fazia um esforço por se manter a par dos assuntos, fazia pesquisas na internet, treinava o nome dos artistas, decorava alguns dados curiosos sobre a sua vida ou nomes de obras e até de museus onde se encontravam essas obras. Mas sentia-se sempre em clara desvantagem e isso desagradava-lhe imenso, tornava-o inseguro.
 
O seu rosto iluminou-se quando, naquela tarde, fora fazer uma entrega de uma televisão a casa de uma senhora. Ao entrar na sala com o fardo, deparou com o quadro preferido da sua namorada pendurado na parede. E sorriu. Lembrou-se da lição que ela lhe dera sobre aquele quadro cujo nome francês não decorara mas que era qualquer coisa como “um domingo na Grande ilha”.
 
- Gosta de Seurat?
 
Virou o rosto na direção da voz que o interpelara. Era a dona da casa que o observava com divertido interesse.
 
- Mais ou menos. Depois de me terem esclarecido alguns apetos do quadro, passei a achá-lo interessante.
 
- Sim? Que aspetos?
 
Não percebera ainda se a senhora se divertia com ele ou se estava realmente interessada no que tinha para dizer.
 
- A primeira vez que olhei para o quadro, causou-me alguma estranheza a mistura de classes. Aquele homem ali deitado ao lado de pessoas que pertencem claramente à burguesia parecia despropositado e quase improvável. Afinal era mesmo assim. Uma espécie de praia no meio do Sena onde todas as classes se juntavam para passear e fazer piqueniques aos domingos.
 
- Muito bem. Também lhe explicaram as metáforas presentes no quadro?
 
- Metáforas? – começava a sentir-se desfortável com aquela conversa, pelo que foi retomando os seus afazeres.
 
- Sim. Por exemplo, os cães representam as classes sociais da época e até o macaco que aquela senhora leva pela trela é simbólico. Ao que parece, naquela época “singesse”, em calão, significava prostituta. Macaco, em francês, diz-se “singe”...
 
- Ah, sim, sim...
 
- É muito curioso como a arte nos pode contar tanta coisa sobre os comportamentos sociais. São verdadeiros testemunhos da história. Não concorda?
 
- Sim, sim...
 
Começava a entrar em terreno que não conhecia em profundidade e por isso limitava-se a responder em monossílabos enquanto ia montando a televisão. Deixara de olhar para o quadro e para a senhora e concentrava-se nos parafusos, na chave de fendas que não era aquela – onde a teria deixado? Ah, sim, no bolso do casaco.
 
Quando terminou, deitou mais um olho ao quadro e saiu, despedindo-se da senhora com um aperto de mão. Na cabeça, levava um pensamento luminoso: haveria melhor maneira de a pedir em casamento do que oferecer-lhe uma réplica daquele quadro, o seu quadro preferido?
 
À hora do almoço, comeu uma sandes rápida e entrou em algumas lojas da especialidade à procura do quadro. Mas sem sorte. Ninguém conseguia arranjar-lhe uma réplica daquela obra. Passou em frente a uma ouriveraria e ainda se sentiu tentado a resolver a questão comprando-lhe o tradicional anel de noivado. Mas, enquanto se decidia e não a fazê-lo, recebeu uma mensagem da sua namorada a informar que nesse dia teria um jantar com os colegas e que não daria para se encontrarem. Não, tinha de conseguir o quadro. Estava a perdê-la, ele sentia-o, e precisava de algo forte, como o quadro, para a impressionar. Devia ter perguntado àquela senhora onde tinha ela conseguido o quadro. E se lá voltasse?
 
Quando terminou o trabalho, passou novamente em frente ao prédio da senhora e estacionou o carro. Já não tinha a certeza se ela morava no 3º esquerdo se no 3º direito. Tentou lembrar-se para que lado virara quando saíra do elevador. Sem grandes certezas, carregou na campainha do lado direito.
 
- Quem é?
 
A voz masculina e grossa intimidou-o um pouco, mas resolveu arriscar.
 
- É de casa da D. Helena Bartlett?
 
- Não, não, isso é no 3º esquerdo.
 
- Obrigado.
 
E abriu-se a porta. Algo hesitante, empurrou-a e entrou. Enquanto subia no elevador, ia tentando organizar as suas ideias. O que diria quando a senhora lhe perguntasse o que estava ali a fazer?  O melhor era contar-lhe a história toda. A senhora até parecia simpática, certamente dispensaria algum do seu tempo para o ouvir.
 
Quando chegou ao piso pretendido e saiu do elevador, reparou que a porta do 3º direito estava encostada. Bateu à porta, mas não se ouvia nada. Voltou a bater e ninguém lhe respondeu. Achou estranho a porta estar aberta e decidiu abri-la e espreitar.
 
- D. Helena Bartlett? – chamou.
 
Nada. Será que acontecera alguma coisa? Entrou a medo, voltou a chamar e voltou a deparar com o dito quadro. Então, sem pensar, sem perceber o que fazia ou por que o fazia, entrou na sala, agarrou no quadro e saiu. Que estava ele a fazer? A tornar-se num ladrão? Não podia fazer aquilo, não estava certo. Mas o seu corpo não obedecia, continuava a caminhar, o quadro nas mãos, trementes, transpiradas. Colocou-o na carrinha e arrancou. Faria o pedido nessa noite. Ia mandar-lhe uma mensagem a dizer que precisava de falar com ela ainda nessa noite.
 
Esperou. Estava nervoso. Por que não lhe respondia ela? Se calhar estava a precipitar-se. Amanhã também era um bom dia para lhe fazer o pedido. Era sábado e costumavam almoçar juntos. Era isso. Decidiu então embrulhar o quadro. Tornaria o momento mais emocionante, mais mágico. Enquanto o embrulhava, o medo ia tomando forma e crescendo. E se ela descobrisse que o quadro era roubado? Não, não havia como. Ele dir-lhe-ia que tinha encontrado aquela réplica numa loja de antiguidades. Ela nunca desconfiaria. Esperava ele. Desejava ele. Pedia ele.
 
Na manhã seguinte, telefonou-lhe. Precisava de falar com ela. Ela também precisava de falar com ele. Tinha uma coisa muito importante para lhe dizer. Ela também tinha. O que seria? Começava a ficar nervoso. O momento mais aguardado na sua vida estava prestes a acontecer – por que se sentia inquieto? Estava a ser tonto, infantil. Nada poderia correr mal. Ela ia ficar fascinada quando visse o quadro. E não poderia responder-lhe nada a não ser um luminoso SIM.
 
A campainha tocou e ele foi abrir a porta. Era ela. Estava linda, como sempre, os seus belos cabelos loiros, compridos, soltavam um cheiro agradável a flores silvestres. Nas orelhas, trazia as argolas de prata grandes, que ele adorava. Abraçou-a, mas a receção não foi muito calorosa.
 
- Temos que falar – disse ela, sentando-se no sofá.
 
- Sim, concordo. Já há algum tempo que ando para te dizer isto, mas finalmente chegou o momento.
 
- Também achas que chegou o momento? Ainda bem que concordas. Não sabia como dizer-to. Ainda não tinha a certeza, mas ontem percebi que não aguentava mais.
 
- Nem eu. Nem eu. Ando há tanto tempo a preparar este momento...
 
- Pois... Eu não consegui preparar-me para ele. Acho que nunca estamos preparados para acabar uma relação. É difícil. Mas ainda bem que o sentimento é mútuo...
 
- Para... acabar uma relação? Que relação? – sentia-se confuso. Acabara de levar uma estalada de uma mão gigante e fria que o atordoara e ele não tinha percebido bem o que acontecera.
 
- A nossa relação. Não era disso que estavas a falar? Tenho conhecido pessoas fantásticas que têm os mesmos gostos e interesses que eu. Acho que podes arranjar melhor do que eu. És uma pessoa fantástica, mereces alguém que te ame verdadeiramente. Estou a pensar ir para o estrangeiro. Se quero fazer uma carreira de artista, não posso ficar aqui. Vou um ano pelo programa Erasmus. Vou conhecer pessoas. Procurar portas abertas – e os seus olhos brilhavam numa antevisão do futuro auspicioso que a aguardava.
 
Ele olhava, incrédulo, o sorriso aberto que era, agora, uma porta que se fechava para ele. Não sabia o que dizer. Não tinha o que dizer. Levantou-se, foi buscar o embrulho e saiu. Tinha que devolver o quadro...
 
 
(SV)

 
 
 
 
OLHAR…
 
 
                …o caminhar distraído de pessoas que deambulam em solidões urbanas, familiares. O adormecer esvoaçante, lento
 
…t  ã  o     l  e  n  t  o…
 
                                                                                                                             de uma folha amarela, outonal sobre uma cama feita de pedras da calçada. O gelado que se vai derretendo em pequenas mãos feitas de tantos brinquedos de infância. Olhar os barcos que navegam em rios-estrelas. Te. A voz dolente de Nat King Cole, que ondula em vidros chorosos fustigados pela chuva de uma aldeia mergulhada no fumo quente, fantasma, de lareiras a cheirar a castanhas. Os teus dedos finos, de pianista, sobre cujas teclas vestidas de preto e branco dançam sedutoramente.
… tlim… tlim… … tlim…
Olhar a claridade que se intromete nestas subtis frestas da janela do meu quarto, incendiado de pensamentos-insónia e à procura da água que os leve. Olhar-vos, lombadas de livros, as vossas cores, as palavras
 
               assombro
 
             perfume
 
               biblioteca
 
             segredos
 
          viagens
 
        manhã
 
          guitarras
 
 
(e tantas tantas mais outras)
 
                                                                                                              as páginas brancas, amarelas-Tempo, o seu murmúrio,
 
vem
vem
vem
deixa-te levar nesta aventura…
 
Olhar o Tempo que devora. Eu tu nós vós. Ela elas. Ele eles. A fuga de lâmpadas com sabor a laranja nas noites quentes de verão. O teu rosto quando da tua boca sai o sopro-vida de bolas de sabão dançarinas e coloridas ao encontro do arco-íris. Olhar as cidades que não conheço e de que tanto oiço.
 
 
(Toco-as ao tocar-te…).
 
 


                                                                        ómega

                                                                        lua

                                                                        hífen

                                                                        amar

                                                                        rir
 
As personagens que nos fazem rir em dias em que nos apetece chorar. O Pluto. O Óbelix e o Mancha Negra. O Peninha, o Calvin e o Hobbes. O Charlot quando come a sola dos sapatos porque a fome é muita. A penumbra de um quarto, os lençóis preguiçosos em que se sentiu a Vida. A roupa pendurada que bate de encontro à parede branca, nas janelas à minha frente, contrafeitas.
 
(Olhar a Incompreensão,
 
o Ódio,
 
a Raiva,
 
a animalidade nas estradas,
 
 a sujidade das ruas que pisamos,
 
olharmo-nos ao espelho e sabermos que somos capazes de pior,
 
muito pior…
 
matar,
 
matar…)
 
 
 
Olhar o misterioso sorriso de Gioconda. A Nice de Samotrácia (recordo a forma como a pintavas, nas escadas do museu, de olhar-pincel). E a simplicidade no voo de uma borboleta branca, num voo trôpego, enquanto passeia, na ponta do meu dedo, esta joaninha de vestido vermelho e preto, como se não existisse TEMPO…
 
(de olhos fechados)
de
olhos
fechados
 
 
 
(PM)
 


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