segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...

 

Amedeo Modigliani, “Woman With Black Cravat


Já não me lembro por que casei contigo. Se me disserem que foi porque tinhas qualidades, gritarei que é mentira. Tenho a certeza de que quando nasceste e te viraram de cabeça para baixo, as supostas qualidades que afirmam que tinhas e que tens se esvaíram com o choro. Não sei por que casei contigo. Sempre que olho para a fotografia do casamento que temos na parede do nosso quarto (fazes questão que olhe para ela todas as noites, antes de me deitar, para me lembrares que é meu dever agradar-te, servir-te, lamber-te), apetece-me cuspir-lhe em cima, rasgá-la em mil pedaços, como já fiz com todas as outras que estavam guardadas na gaveta e de que, felizmente, nem te lembras.
 
Por tua causa, nunca soube o que era trabalhar. Disseste-me sempre que o lugar da mulher era em casa, a cuidar do marido, da casa, dos filhos... que nunca tivemos. Não foi por falta de tentativas. Nem de posições. Experimentámo-las todas, até as mais dolorosas, que eram as que te davam mais prazer. Todas as noites te punhas (pões) em cima de mim, chamavas-me nomes, batias-me (porque as mulheres, segundo dizes, gostam que lhes batam enquanto fazem sexo) e, depois de satisfeito, adormecias. Eu aproveitava, então, para me lavar, eliminar o teu cheiro do meu corpo. Cheiras mal. Cheiras a vinho, cheiras a suor, cheiras a perfumes baratos. E metes-me nojo.
 
Nunca me deste a oportunidade de provar que não era minha a culpa de não termos filhos. Ao fim de alguns anos, começaste a dizer a toda a gente que não prestava para nada, nem para ter filhos. Pedi-te o divórcio, a medo, e durante uma semana mal me pude mexer. Tiraste o cinto das calças (teu fiel aliado) e descarregaste a tua raiva sobre o meu corpo, sobre os meus gritos, sobre o meu pranto. Depois, como um animal, acabaste de rasgar a minha roupa e entraste em mim com fúria, grunhindo que eu era tua, só tua, que nunca seria de mais ninguém. Posso não ser de mais ninguém, mas tua é que não sou de certeza. Possuis o meu corpo à força, tens o meu medo. Nada mais.
 
São seis horas. Já lavei a casa de banho, que deixas imunda de cada vez que a usas. Acho que deves urinar para o chão de propósito, deixas cabelos na banheira, respingas pasta de dentes e creme de barbear para o espelho, deixas a roupa espalhada pelo chão. Já me apeteceu deixá-la tal e qual, mas a necessidade é mais forte e acabo por ter que a limpar para a poder usar. Além disso, sei também que te estaria a provocar e que iria sobrar para mim. Não sei o que inventarias para me torturar, mas és louco e sei que não hesitarias em humilhar-me e magoar-me.
 
Não temos telefone em casa. Para ninguém desconfiar, de vez em quando telefonas do teu telemóvel para os meus pais e obrigas-me a dizer-lhes que está tudo bem, que estou muito feliz. E quando os meus pais manifestam vontade de vir cá a casa visitar-me, obrigas-me a dizer que vamos sair de férias por uns dias e que logo lá vamos. Eles devem desconfiar de algo, mas como eu não me queixo, vão deixando andar. Não tenho como comunicar com eles. Com ninguém, aliás. Já pensei escrever um pedido de ajuda num papel e colocá-lo debaixo da porta da rua. Quando alguém passasse em frente à nossa porta, vê-lo-ia e poderia tentar fazer alguma coisa, chamar a polícia ou assim. Mas e se fosses tu a encontrá-lo? Matavas-me de certeza. E eu não quero morrer. Não mereço morrer. Quem deveria morrer eras tu e não eu.
 
Passos. Será que já és tu? E ainda não tenho o jantar preparado. Quando chegas a casa, sejam que horas forem, queres que o jantar já esteja preparado. E, se não estiver, é um motivo para me bateres. Só que nunca tens horas de chegar. Nunca sei a que horas devo fazer o jantar. Se calhar o melhor é começar já a fazê-lo. São seis e vinte. Ainda é cedo. E os passos continuaram pelo corredor. Não eras tu. Ainda. Se calhar vou começar a descascar as batatas. Detestas arroz. Dizes que isso é comida de ratos e de chineses, que para ti são sinónimos. E então empanturras-te de batatas. Às vezes faço massa, porque já não suporto as batatas. Reclamas, mas comes. A minha comida nunca presta. Fazes sempre questão de dizer que está horrível, salgada ou insossa ou nenhuma das duas. Mas come-la sempre e até repetes.
 
Se não dormisses com a chave de casa debaixo da almofada, já tinha fugido. Uma vez tentei tirá-la. Dormias profundamente depois de mais uma das tuas bebedeiras. Coloquei a minha mão debaixo da almofada e procurei-a. Quando a senti, comecei a puxá-la devagar e qual não foi o meu horror e raiva quando percebi que estava presa ao teu braço! Desfiz-me em lágrimas, nessa noite. E conformei-me com o que o destino me tinha reservado.
 
Oh! A chave! Está a abrir a porta...
 
- Como está a minha mulherzinha? A preparar o jantar para o maridinho?
 
Entras e diriges-te para a cozinha. Páras à porta, a sorrir. Estás estranho. Tu nunca sorris. Fizeste a barba, hoje. E vestes um fato. Com gravata... Tu detestas fatos. E muito mais gravatas. Nunca as suportaste... Por que te terias vestido assim? Aproximas-te. A sorrir. As mãos atrás das costas. Baixo o olhar, continuo a descascar cenouras. Páras já muito perto de mim. Olhas-me de uma maneira estranha, quase meiga.  E estendes-me uma flor, que trazias escondida atrás das costas. É uma rosa. Vermelha. Agarro-a, intrigada. Nunca me ofereceste uma flor. Aliás, nunca me ofereceste nada a não ser pancada e dor. Agarras-me e beijas-me.
 
- Gostaste da surpresa? – perguntas, a tua voz sussurrada, a tua boca no meu pescoço.
 
- Sim.
 
Tiras-me o avental. Está na hora. Começo a desapertar a blusa branca, gostas que eu me dispa para ti. Mas mandas-me parar. Estás estranho. Estás muito estranho. Não sei muito bem como me comportar. Noutro dia qualquer já me terias batido por o jantar ainda não estar terminado. E já te teria dentro de mim, a tua força toda a magoar-me por dentro e por fora. Tiras a tua gravata. Preta, reparo agora. A que usaste no funeral do teu pai. Colocas-ma no pescoço e pedes-me que dance para ti. Começo a mexer-me, devagar, a balançar-me para a frente  e para trás, para a esquerda e para a direita, os olhos no chão. Imagino uma música para ser mais fácil movimentar-me.
 
- Mexe-te, mulher! – disparas, o verdadeiro tu a aparecer.
 
Mexo-me mais. Sinto-me ridícula. Agarras a gravata e puxas-me para ti, os corpos um contra o outro outro, os teus braços, fortes, à minha volta, a apertar. Com uns puxões, tiras-me a roupa e devoras o meu corpo, numa raiva incontida. Só a gravata permanece no meu pescoço.
 
- Estás a ficar velha – dizes, enquanto me olhas, já saciado. Estendes os braços, brincas com a gravata, que se vai estreitando.
 
- Fica-te bem, esta gravata. Não quero que a tires nunca mais.
 
E continuas a ajeitá-la, compenetrado, pareces querer que ela faça parte do meu corpo.
 
- Estás a apertar de mais – digo, a medo, tentando libertar-me daquele abraço mortal. Mas és mais forte e continuas a apertar, os olhos vidrados, pretos. Tento empurrar-te, em vão. Doem-me as costas, pressionas-me contra o balcão da cozinha. Aflita, olho à minha volta. Quase não respiro, abro a boca à procura de ar, entra, por favor, entra, preciso de ar, as minhas mãos na tua cara, no teu peito, a empurrar, a gravata sempre a apertar, as minhas mãos na bancada, a minha mão direita nas cenouras, na faca, os sentidos quase a perderem-se, para sempre.
 
       Para sempre ficará na minha memória o dia da minha libertação, a faca nas tuas costas, a rosa que caiu, desamparada, sobre o teu corpo, a gravata que não tirarás jamais do corpo...
 
 
(SV)
 
 
 
          Não se consegue explicar. Erra-se, perdemo-nos em nós próprios na procura de algo que nos consiga purgar as tentativas infrutíferas desta procura. Caminha-se de cabeça baixa, afogados em pensamentos rasteiros, interiores. Uma pedra da calçada suja. Uma pastilha que sorri para sapatos distraídos, cansados. Papéis rasgados, testemunhas surdas de um desespero feito de milésimos de segundo mas de vidas plenas. Uma peça de lego, colorida, esquecida em pensamentos circulares, até retangulares. Imagine-se! Uma velha pétala, como um fôlego-instante, um parafuso. Estranho seria encontrar uma tecla de piano, feita de marfim-ébano. O que seria do piano que a perdeu, o seu desespero, o seu grito…? A saliva que nos torna animais de capas urbanas vestidos. Sim. Não se consegue explicar. Uma linha qualquer no chão transforma-nos, subitamente, em fantasmas de mãos no ar, nesta vida-trapézio que nos conduz, tantas vezes, para um trampolim traiçoeiro, num salto direto ao abismo. Olhamos os pequenos desfiladeiros que nos fazem tropeçar, até cair. Levantamo-nos. A vergonha social de nos verem numa posição de animais antigos, os mesmos que depois nos fizeram subir árvores, procurar o seu topo, na procura desesperada da evolução. Depois, a dor. O sangue que corre, aos poucos, pelos joelhos. Sorrimos. Afinal, não foi nada. Vai passar. Chegaremos a casa. Negros. Cheios de nódoas. Negros. Da sociedade. De Nós-Outros-Próprios. Assim. Olhar-Chão. E sem que se queira, sem que nos apercebamos, levantamos a cabeça. Porque tropeçámos, apesar de olharmos o chão. Tantas vezes de forma tímida. Como se nos criticassem por simplesmente fazê-lo. Porque deixámos de pensar-animal. E acorda um novo cosmos. Torna-se, o mundo, estranhamente horizontal. Entrevemos quem olha para baixo. Como nós, há pouco. Com o sangue a escorrer pelas canelas, agora. Apercebemo-nos de como quase nos tocam e da necessidade que sentimos de nos afastarmos desse toque. E vemo-nos. Refletidos. Em formas. Num jarro de vidro. Numa montra que nos fala. Nos vidros dos carros, que nos tornam mais elegantes. E mais próximos das árvores que outrora frequentávamos em busca de galhos, de ramos para onde nos atirávamos, com sorrisos-grunhidos. Nos pequenos espelhos onde nos vemos para nos pentearmos nos carros a caminho do emprego, sem esquecer o batom, onde nos deixamos levar, roboticamente… eu… te…nho…que…ir…tra…ba…lhar…! Nos óculos escuros, direitos, redondos, verdes, azuis, por trás dos quais escondemos as noites mal passadas e a vontade de conhecer porque temos tanto estilo e tu também e os olhos pintados de negro-violência, tão sedutoramente delineados… E vamos mantendo esta postura, equilibrada, de evolução. E deixamos de ver o chão, onde tropeçamos. Porque alguém não cresceu e atirou a casca de banana que nos mantinha noutros tempos. E quando nos levantamos, olhamos para cima. E damos por nós a olhar os troncos das árvores que se transformaram em cubos de cimento. E a olhar o azul. E o cinzento. E as estranhas formas brancas que nos vão distraindo. Os rasgos de aves metálicas que rugem civilizações. Ah! O progresso... O progresso. O Regresso.
 
Hoje olhei para ti. Caminhavas em câmara lenta. Ias a sangrar do joelho. Vi os teus olhos. Castanhos. Cor de mel. Foi sem querer. Devem saber a mel. É assim que vivo. À procura do mel que me adoça o caminhar ausente dos meus dias.
 
(PM)

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