segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Rosa Maria Martelo e Boris Filinov


Lama

 

 

 

 

 

 
          O que faz um fotógrafo de nuvens e de estrelas, neste dia de chuva, de temporal desfeito, quase deitado no chão, fotografias espalhadas em volta, no meio da lama? Há quem se aproxime para o ajudar, quem apanhe as imagens mais sujas e lhas devolva limpando-as com a ponta do casaco. Mas, uma a uma, ele volta a colocá-las onde estavam, tão meticulosamente como se as dispusesse num desses tabuleiros que usa para a revelação dos negativos. E, esfregando-as contra as pedras da rua, desenha mais sulcos no papel fotográfico – riscos, manchas negras. “As belas fotografias”, digo-lhe, desolada, enquanto procuro salvar ainda as menos atingidas. “Manchadas, estragadas. Porquê tudo isto? Eram tão leves as tuas nuvens, foram tão demoradas de fotografar na exata medida de luz e de sombra”. Molhado até aos ossos, o fotógrafo celeste parece estranhamente feliz com a sua obra. “Agora estão certas”, diz. “Continuam tão belas quanto eram, mas têm também aquela margem de lixo e de desordem sem a qual nada pode ser verdadeiramente deste mundo”.
 

 
 
in Resumo, a poesia em 2009
 
 
 
 
 
Boris FILINOV, "Camera"

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