segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...


Lucién FREUD, "Francis Bacon"
 
 
 






Mais um dia de trabalho. O despertador tocou à hora do costume. Sete horas da manhã, o sol já nasceu, sinto os seus dedos esgueirarem-se pelos buracos da persiana, deslizarem pelo meu rosto, pescoço, e adormecerem nos lençóis quentes que me cobrem. Viro-me para o outro lado, mas sei que tenho que me levantar. O tempo não pára, bate-me nas costas, volta a tocar, não me larga, entra-me no pensamento, é preciso levantar, levanta-te, levanta-te e levanto-me. Meio atordoada ainda pelo sono, tomo um duche rápido, visto-me, volto a despir-me, volto a vestir-me, agora sim, gosto do que vejo, tomo o pequeno almoço a correr e saio.
 
Sempre em passo acelerado, entro na estação do metro, compro o jornal do costume e sigo para o metro. A esta hora quase nunca me consigo sentar. É o caso, hoje. Encosto-me a um banco e leio a primeira página e a última do jornal. Gosto do cheiro que emana do jornal. É como pão quente pela manhã. Olho as pessoas à minha frente. Sérias. Zangadas, umas. Ensonadas, outras, algumas acho que sonham ainda. São mundos que nunca saberei.
 
Empurrada pela multidão, saio do metro e dirijo-me à saída. E estaco. Nem quero acreditar! Um rapaz alto, de óculos escuros espelhados, envergando um casaco de cabedal preto sobre o que poderia ser uma t-shirt branca e umas calças de ganga pretas está à saída da estação a tocar uma versão fantástica de uma das minhas músicas preferidas.  Não consigo conter um sorriso enquanto o ouço tocar. Apesar da hora, várias pessoas vão parando para apreciar a melodia que aquece aquela linda manhã primaveril. O sol matinal parece aquecer mais, o vento que se faz sentir acalma e senta-se por alguns momentos para ouvir. Vão chovendo algumas moedas, pessoas que partem, outras que ficam, uma com lágrimas nos olhos, eu com um interminável sorriso, a cabeça cheia de recordações azuis, quentes, que me fazem fechar os olhos por instantes, o cheiro a pão quente debaixo do braço. Fico ainda para ouvir mais uma, as imagens do vídeo a correr diante dos meus olhos. Então, de novo o tempo, na pressa das pessoas, das que partem, das que nem param, no relógio, e atiro uma moeda para dentro da caixa do violino que permanece aberta no chão, ao lado do tocador.
 
Quando me viro, encaro com um homem sentado no chão, certamente estrangeiro, o cabelo curto, de uma cor indefinida, de um castanho claro com reflexos loiros, pele branca, olhos grandes, claros, com umas pálpebras imensas, que olha para a caixa do violino com um olhar ausente. Repara então em mim, não estende a mão, não tem qualquer papel escrito ao seu lado, uma caixa, nada. Está apenas ali. Parado. Sentado. E eu aqui. Parada. De pé. Sem me conseguir mexer.
 
Não te mexes porque agora é a minha vez. Não sabes por que olho para ti assim. Na verdade, por nenhum motivo em especial. Calhou. Viraste-te para mim. És bonita. E às vezes é  assim, não conseguimos deixar de olhar para a beleza. É como se nos hipnotizasse. Por mais que tentemos desviar o olhar, ele volta sempre para a luz. Sabes, gostava de ser como aquele rapaz, saber tocar um instrumento musical. Quem sabe talvez fosse a solução para os meus problemas. Deve fazer um bom dinheiro ao final do dia. Vim há dois anos para aqui. Tenho trabalhado nas obras. Mas já há algum tempo que estou sem trabalho e o dinheiro acabou-se. O que se faz numa cidade sem dinheiro? O que se come? Onde se dorme? Não quero pedir esmola. Quero merecer o dinheiro que tenho e gasto, mas não tenho como o ganhar. Se ao menos eu soubesse tocar um instrumento...
 
Num gesto irrefletido, tiro o porta-moedas da mala e atiro-lhe uma moeda, que vai cair em frente às suas mãos pousadas em cima dos joelhos. Reparo que no dedo anelar tem um anel, que parece uma aliança invulgar. O seu ar de surpresa rasga o espaço que nos separa, os seus lábios contraem-se, o olhar endurece. Arrependo-me imediatamente do meu gesto e apresso-me a sair dali. Já estou em cima da hora e não gosto de chegar atrasada. Sou a chefe dos Recursos Humanos da empresa onde trabalho e gosto de dar o exemplo às pessoas que trabalham comigo. O violino acompanhou-me durante o dia todo e alimentou em mim o desejo de o reencontrar no regresso a casa. Mas quando lá passei, já lá não estava o violinista. Percorri o local com o olhar e apenas encontrei o estrangeiro, o olhar áspero em mim. Não compreendo o efeito estranho que aquele olhar azul tem sobre mim. É um azul-gelo, que me congela os movimentos, me amedronta. Reparo que tem moedas à sua frente. E de alguma forma isso tranquiliza-me, alivia o peso que senti quando lhe atirei aquela moeda.
 
Por tua causa, tornei-me mendigo. Depois de teres atirado aquela moeda que estive quase para te devolver, um homem atirou também ele algumas moedas e ao fim de algum tempo já tinha o suficiente para comer qualquer coisa e para telefonar à minha mulher. Não lhe disse que estou sem trabalho e que estou a viver na rua. Mas expliquei-lhe que isto já não está a ser muito vantajoso e que pretendo voltar para casa. Tenho tantas saudades tuas, querida Natasha. Da tua pele branca, do teu sorriso franco, de acariciar os teus longos cabelos pretos. Vou voltar. Sim, vou voltar.
 
Dois dias volvidos, saio da estação do metro e volto a encarar o estrangeiro pelo terceiro dia consecutivo, a mesma cara coberta de tristeza e desalento. À sua frente, um cartão com algumas palavras escritas: “Ajudame a voltar pra caza”. Olho-o com ternura. Não sei explicar o efeito que aquelas palavras tiveram em mim quando as li. Soaram-me a um pedido de ajuda. Dei por mim a apetecer-me abraçá-lo, dizer-lhe que tudo vai correr bem, que o seu desejo será realizado. Abro a carteira, retiro uma nota e entrego-lha embrulhada num sorriso. Um breve sorriso e um olhar de espanto são o seu tímido agradecimento.
 
Nesse dia, durante a manhã, comentei com algumas colegas o sucedido, falei-lhes daquele imigrante, do primeiro encontro, do encontro do dia anterior e daquele dia e três delas manifestaram vontade de contribuírem com algum dinheiro para o ajudarem a regressar. Não o conhecíamos. Era um facto. Podia ser um engodo. Eu sei que sou muito emotiva. Que me emociono com facilidade com as injustiças. Que não consigo deixar de me colocar na pele das pessoas. Que podia ser eu a estar naquela situação. Então, resolvi falar com ele antes de lhe dar o dinheiro. Ou tentar, pelo menos. Não sabia se me compreenderia. Mas tinha que tentar.
 
Quando regressava do emprego, tive uma agradável surpresa. Ainda não chegara à estação, e já estava a ouvir as notas do violino a ecoar pelo ar. Apressei o passo ao som do Carnaval de Veneza, de Paganini, e fui cantarolando a canção infantil “O meu chapéu tem três bicos”. Ali fiquei durante algum tempo a ouvir aquele som maravilhoso e a viajar pela infância. A minha avó costumava cantar-me essa canção, com gestos que eu tentava imitar na perfeição. Cantava tão bem, a minha avó... Sei que um dos seus sonhos de menina era ter sido cantora. Mas os seus pais não aprovaram a ideia, era uma vida incerta e não ficava bem uma mulher dedicar-se a essa vida de boémia. Acabaria por se casar e se dedicar à família.
 
Sempre me fascinou o som do violino. E este rapaz toca tão bem... Reparo agora que tem ar de estrangeiro. O cabelo em crista e os olhos rasgados remetem para traços asiáticos. Tem um sorriso simpático. Há algo nele que me cativa. Não sei bem o que é. Não consigo deixar de olhar para ele, para a forma como toca o violino, como movimenta o seu corpo ao som da música e dos movimentos que vai fazendo com o braço direito.
 
Hoje, quando fui almoçar, telefonei à Natasha. Fiquei a saber que a minha mãe está muito mal. O médico não descobre o que tem e ela definha de dia para dia. Já está assim há algum tempo, mas não me quiseram dizer nada para não me preocupar. E eu aqui preso. Sem dinheiro para voltar. A Natasha já está a desconfiar de que alguma coisa não está bem. Este processo das esmolas é muito demorado. Há um senhor, de barba, que todos os dias me tem dado cinquenta cêntimos. Mas quantos meses demorarei para juntar o dinheiro para o avião de cinquenta em cinquenta cêntimos? É um facto que quando está cá este rapaz a tocar há mais pessoas e as esmolas aumentam. Mas ele não está cá todos os dias. E eu não tenho tempo. Tenho que fazer alguma coisa. A minha mãe está a morrer e eu tenho que me despedir dela. As pessoas que conheço são todas como eu, imigrantes, com dinheiro para sobreviverem ou nem isso. E se eu fosse falar com o Dimitri? Não gosto muito dele, é meio mafioso, mas se calhar era capaz de me safar.
 
Uma rapariga loira, com um vestido curto, florido, nitidamente turista, deixa cair uma moeda de dois euros para a caixa do violino. Reparo, então, no dinheiro que ele tem na caixa. À vontade, já deve ter uns quinze euros. Não sei há quanto tempo está aqui a tocar, mas nada mal para alguém que faz o que gosta e ainda se diverte, não tem horários a cumprir e nem tem de prestar contas a ninguém.
 
A noite começa a cair. Lembro-me então do meu propósito e procuro o estrangeiro com o olhar. Mas não o vejo. Não está onde estava de manhã, onde está sempre. Não sei se dorme ali ou noutro lado qualquer. Não sei nada. E as dúvidas começam a assaltar-me.
 
No dia seguinte, quando abandono a estação do metro, vejo-o. Sempre triste, um semblante carregado. Brinca, num gesto que podia ser de nervoso, com a aliança em dois tons, dourada e prateada. Olha o vazio. Nenhuma moeda no chão. Mas estou atrasada, não posso ficar para conversar. Deito-lhe uma moeda e sigo o meu caminho.
 
Já no regresso, páro num café para comer qualquer coisa. Aquela reunião deixou-me a cabeça em água. Às vezes questiono-me se vale a pena o dinheiro que recebo a mais por ter o cargo que tenho. O trabalho é imenso, a responsabilidade é acrescida e agora quem tem que informar dos despedimentos sou eu! É uma tarefa muito ingrata! Como olhar as pessoas nos olhos? Pessoas que sempre deram o seu melhor? Olho para a janela. A noite já caiu. Será que ainda encontro o estrangeiro? Peço para me embrulharem uma sandes com manteiga e fiambre. Ele deve ter fome. Pago e saio, sem pressa. Estou cansada e nervosa. Como correrá a conversa? Será que ele lá está? Há pouca gente na rua. Provavelmente muitas já chegaram a casa e descansam. Incomodam-me os sapatos, hoje. Apetece-me tirá-los e caminhar descalça. Mas não o faço. Parece-me ouvir o violino ao longe. Será? O que tocará hoje? Dobro a esquina, mas não mais ouço as notas mágicas. Se calhar foi só impressão. Já lá não deve estar a esta hora. Subo a rua. E viro à esquerda.
 
Estou já perto da estação quando vejo um vulto no chão. Estranhamente, não há gente por ali. Ninguém à vista. Então, percebo que o vulto caído no chão é o rapaz do violino. Aproximo-me, a medo. À  frente, junto à parede, dois homens. O barulho dos meus saltos altos fá-los virar a cabeça. Primeiro, um olhar de espanto. Depois, a faca na mão de um dos homens, que se dirige para mim. O mais baixo fixa-me, um ar aflito. Mas cala o grito.
 
- A carteira! A carteira! O relógio! Os brincos!
 
É estrangeiro. Tem sotaque. Enquanto o mais alto me agarra os cabelos e encosta a faca ao pescoço, o outro, o mais baixo, puxa pela minha mala. Tem mãos pequenas. E uma aliança invulgar no dedo. Continua a olhar-me, a alça da mala esquecida na sua mão. O outro pressiona a faca no meu pescoço e assustada, incrédula, como que hipnotizada, abro a mala. Retiro o porta-moedas onde está o envelope com o dinheiro das minhas colegas. Agarro nele e faço questão de lho entregar em mão. Toma. Era para ti, de qualquer maneira, penso. Entrego tudo. No olhar, a desilusão. E a raiva. E é com esta que atiro o saco com a sandes para o que me retirou os pertences, que me olha, sempre. Entretanto, o rapaz começa a mexer-se. Não está morto! Uma sensação de alívio percorre-me, enquanto os vejo fugir. Finalmente posso aproximar-me dele, chamar o 112, pedir ajuda à pessoa que se aproxima.
 
Parto para a Roménia, onde vivi toda a vida numa aldeia. Quando casei, os meus pais ofereceram-nos uma vinha e era ela o nosso sustento. Um dia, um fogo tremendo queimou-a e o nosso sustento desapareceu de um momento para o outro. Um amigo tinha vindo para Portugal e disse-nos que aqui havia trabalho nas obras. Decidi tentar a sorte. No início ainda correu bem, mas ao fim de algum tempo, com a crise instalada no país, rapidamente deixei de ter trabalho.
 
Quando falei ao Dimitri no violinista, ele disse-me logo que tinha uma ideia para me conseguir o dinheiro. Pensei, na minha ingenuidade, que conhecesse alguém ligado à música, sei lá. Na verdade, não pensei em nada. Só queria que alguém me ajudasse a regressar a casa. Rapidamente. Começou por assaltar algumas pessoas que iam parando. É impressionante o modo como ele rouba as pessoas sem elas darem por isso. Deve ter um grande treino. Já de noite, sem pessoas à sua volta, o rapaz começou a arrumar as coisas. Quando percebi que o Dimitri se preparava para o assaltar, pedi-lhe que não o magoasse. Mas ele ofereceu resistência, começou a gritar, e o Dimitri deu-lhe uma pancada. Caiu, como morto, um fio de sangue a escorrer da cabeça. Por isso fiquei aliviado quando vi que o rapaz se mexia. Tinha feito uma boa quantia nesse dia.
 
- Um dia vou cobrar-te este favor, estás a ouvir?
 
Surgiu então aquela mulher, que me dava uma moeda todos os dias. Tão bela naquele vestido leve, em tons de nascer do dia. Por que estará aqui escrito, neste envelope, Boa sorte e Bom regresso a casa? Para quem estaria destinado este dinheiro? Agora é meu e as perguntas são inúteis neste avião. Vou voltar. Sim, vou voltar...


 
 
(SV)
 
 

               Uma vitrina. Minúsculas peças de madeira. Laivos de teias-cordas a unirem os pequenos mastros negros, frágeis. “Intocável”. Assim o foste, meu amigo, ao longo de onze anos. Lutaste contra as ondas que te quiseram derrubar, trepaste-as, vezes e vezes sem conta, sentindo o esforço ofegante do velho motor negro e exaurido. Testemunhaste o convívio de capitães de embarcações agora naufragadas, montras vivas de peixes de olhar esbugalhado. Entre eles reclamam os enormes e velhos canhões de bronze negro o seu desejo bélico de tempos de Coragem-Outrora, enquanto o barro sarapintado de pratos anónimos rememora as bocas barulhentas e famintas de homens-pedra, os únicos que, no fundo, suportam o mar. Sim. Observo-te através desta arca de vidro estreito que te protege.
                - Desculpe-me, o senhor parece muito interessado neste barco. Conhece-o? Já há alguns dias que o vejo por aqui, parado, a observá-lo de forma curiosa. Conhece-o?
                Olho o jovem rapaz que me fala, de fato azul, bem composto, com um pequeno walkie-talkie nas mãos.
                - Se o conheço…? Hum… sim, talvez um pouco. – respondo-lhe com um sorriso hesitante.
                - Sabe, este barco dizem que tem uma história interessante. Esteve muitos anos encalhado num mar de ferrugem num velho estaleiro. Uma avaria qualquer, acho. Dizem que um dia apareceu por lá um homem, com um boné muito gasto pelo tempo – gosto particularmente deste pormenor, um boné muito gasto pelo tempo – que se ajoelhou à sua frente e lhe gritava, de forma aflitiva qualquer coisa como “leva-me leva-me”. Parecia quase possuído por um demónio e enrolava-se todo no chão. Dois anos mais tarde voltaram a vê-lo por lá, com uma enorme mala, amarrada com cordas. Estava cheia de dinheiro. Comprou o barco. Diz quem o viu que toda a gente desconfiara muito do dinheiro mas o homem tinha-lhes dito que encontrara um tesouro e que o vendera. Nunca quis dizer que tesouro era, ainda que toda a gente tivesse insistido em saber mas ele nunca lhes disse. E é claro que o estaleiro lhe vendeu o barco, sempre era muito dinheiro e não o queriam perder. Um tesouro, já viu? Mas quem é que compra um barco todo enferrujado, a cair aos bocados? – dizia o rapaz de cabelo bem alinhado.
                - Talvez alguém que procure encontrar o mar dentro de si. Já pensou no que o mar nos pode trazer se o tivermos dentro de nós? Alimento, também a morte… mas também a vida. Já pensou em encontrar o mar dentro de si?
                A resposta tinha sido tão rápida que o rapaz estacara perante tal atitude. Olhava-o incrédulo.
                - Pro… pro… curar o mar dentro de mim? Isso é muito estranho. É possível?
                - Sim, é só querer. O Intocável era…
                Não terminara a frase. Voltara a observar a maquete do barco rodeado pelas transparentes muralhas que o separavam do mar, agora em sons saídos de pequenas colunas pretas escondidas no teto, nas colunas, nas paredes. Tornavam-no mais presente o guincho das gaivotas.
                - Desculpe-me, mas o senhor já encontrou o mar dentro de si?
                - Sim, meu rapaz, já. Bastou-me tocar-lhe, ir com as ondas. Ouvi o grito de homens que desesperavam, sem esperança, pela terra alegre que os tragaria mais tarde, escutei as proas celebrarem com copos cheios de espuma a liberdade infinita que ele lhes trouxera, o espanto de pequenos desafios tornados gigantes. Experimentei a falta de ar de peixes dançantes em palcos cheios de nós. Embebedei-me, noites e noites a fio, com garrafas cheias de sal e maresia, enquanto o vento urrava, açoitando quem o desafiava no exterior. Sim, meu rapaz, acho que já encontrei o mar dentro de mim. Basta pensar nele. Tocá-lo. Deixarmo-nos ir, simplesmente.
                - Sem dúvida, conhece este barco! – dizia-me o rapaz de sapatos imaculados – assim como o mar. Esta maquete já aqui está há um ano, acho-a diferente das outras. Sabe como acabou este barco?
                - O Intocável… o… o Intocável nunca deixou de sorrir perante a oportunidade que teve. E, como todos nós, um dia, exausto, deixou-se apenas ir. Não porque desistira. Mas porque ansiava pela corrente contra as quais tantas vezes lutara noutras épocas. Também ele encontrou o mar dentro de si. É preciso saber quando é que podemos ir com a corrente. É por isso que ele é hoje um tesouro no fundo do mar. De outro modo, onde é que ele desejaria estar hoje? Talvez o descubram um dia, não sei.
                O walkie-talkie apitou. O rapaz afastou-se ligeiramente. Uma carteira perdida na sala, algures. Quando regressou, um velho boné, muito gasto pelo tempo encontrava-se por cima da vitrina. A maquete do Intocável encontrava-se, assim, quase vestida por uma sombra circular, que o tornava sombrio. Apenas uma das figuras de plástico, na popa, se encontrava fora dessa sombra. Trazia um boné. Muito gasto pelo tempo. Parece que sorria. Como se tivesse encontrado o mar dentro de si.

(PM)

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