segunda-feira, 9 de julho de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...


John K. HARRELL, "Red Slicker"


Depois do Natal, o vazio. O silêncio. Nevara muito naquela semana, flocos-infância a que ele já se acostumara e cuja magia já não sabia sentir. Ninguém nas ruas. Apenas os carros, poucos, a deslizar na estrada, e as luzes, umas fixas, a iluminar o caminho, outras irrequietas, agindo por impulsos, trocando de cor. Caminhava, as mãos nos bolsos, o pensamento vazio. No bolso direito, as chaves do carro que deixara estacionado à porta de casa. Sempre sonhara ter aquele carro. Preto. Caro. Trabalhara duramente uma vida inteira para juntar uns trocos, que, quarenta anos volvidos, não passavam disso mesmo, de trocos. A primeira mulher que tivera nunca chegara a trabalhar, dizia que a sua profissão era cuidar da família, da casa, dos filhos... que nunca vieram. Cansou-se de trabalhar para as roupas caras que aquela gostava de exibir, os penteados semanais, os perfumes franceses que lhe faziam comichão no nariz. A segunda mulher com quem contraíra matrimónio e de quem também nunca tivera fihos, deixara-lhe, um dia, um bilhete em cima do sofá, exatamente no lugar onde ele gostava de se sentar quando chegava a casa e de onde às vezes nem saía para jantar. Gostava de ver desporto, qualquer desporto, embora o seu preferido fosse o futebol. Se estivesse a passar alguma competição interessante na hora do jantar, a mulher tinha que lhe servir o jantar na sala. Até ao dia em que decidira escrever o bilhete a pedir o divórcio.  E lá tinha ele que repartir novamente os seus trocos com uma simples empregada de café que ganhava bem menos que ele! Agora já não queria casamentos. Mas sentia a falta de uma mulher que lhe satisfizesse os caprichos. À falta de melhor, acabara por se enrolar com a senhora que, duas vezes por semana, ia lá dar-lhe um jeito na casa. Tinha um sorriso simples, enviuvara há alguns anos, era roliça, avantajada, enlouqueciam-no aquelas nádegas redondas, ainda mais redondas quando ela se inclinava para apanhar alguma coisa do chão. Começou por deixar a sua roupa caída nos dias em que ela lá ia. Depois as toalhas e os sapatos. Papéis. E um dia, um convite para jantar fora que ela aceitou emocionada. Daí a pôr-lhe as mãos em cima foi um nada! Quando esta se começou a cansar de encontros esporádicos e a querer tornar o relacionamento mais sério, ele deixou de estar em casa nas alturas em que esta ia lá fazer a limpeza. E ao fim de um mês, teve que contratar uma empresa para lhe fazer a limpeza da casa.
Cansado da vida que tinha, cheia de pequenos-nadas e de miseráveis tostões, um dia aproveitou a oportunidade para mudar de vida. Trabalhava na polícia e todos estavam agitados com a notícia de que naquele dia tinham feito uma apreensão de cinquenta quilos de droga. Nesse dia, um colega abeirou-se dele e propôs-lhe serem sócios. Ele conseguira colocar de lado alguma daquela droga, mas agora precisavam de compradores. Era aí que ele entrava. Ele tinha morado num bairro complicado e na escola fizera alguns amigos que até já tinham sido úteis em algumas investigações da polícia. Certamente eles saberiam como colocar aquela droga no mercado. Quase sem dar conta, tornara-se traficante e em poucos meses conseguiu comprar o carro da sua vida! Quando questionado pelos amigos, dizia que lhe tinha saído o euromilhões.
Caminhava agora numa rua sem carros. À sua frente, um pouco mais à direita, a igreja de Nossa Senhora do Rosário, ainda com luzes a contornar a fachada central, piscando-lhe os olhos numa sonolência hipnotizadora. Há tantos, tantos anos que não entrava numa igreja! Sempre achara que esse lugar era exclusivo das mulheres. Por isso ele concordava que devia haver “padras” – afinal não era esse um local de adoração de homens? Não era Deus masculino? Assim como Jesus? Olhou para o relógio. Tinha tempo. Por um motivo que desconhecia, apeteceu-lhe entrar no recinto, ver se as igrejas permaneciam iguais ou se alguma coisa tinha mudado. Piscou os olhos algumas vezes para se habituar à escuridão, olhou em redor, os santos, as flores, as beatas. Cristo na cruz. Sempre lhe causara alguma impressão aquela imagem. Por que não recordar Cristo livre? Sentou-se no último banco. O silêncio à sua volta pesava-lhe. Colocou as mãos nos bolsos para as aquecer. No bolso direito, sentiu as chaves do carro. Então, quando se preparava para sair, no ombro esquerdo, uma mão. Virou-se. O padre, que o observava há algum tempo, aproximara-se. Conhecia as pessoas que frequentavam a sua paróquia e aquele não era um rosto conhecido. Fazia um peditório. Pelos jovens que haviam caído no vício da droga. Eram cada vez em maior número os pedidos de ajuda que chegavam à igreja. Apesar de a informação ser cada vez mais divulgada, de os jovens estarem despertos para os perigos desse mal, o número de drogados continuava a aumentar. E a polícia que não conseguia apanhar esses gulosos que enriqueciam à custa da desgraça alheia. Tirou uma nota do bolso, entregou-lha e saiu. Não gostava daquela conversa sobre drogados. Se consumiam era porque queriam. Ninguém os obrigava. Os traficantes só existiam porque também existia quem a quisesse consumir.
Apressou o passo. Começava a cair a noite e o frio tornava-se mais incomodativo. Tinha o nariz gelado, as bochechas vermelhas. Aconchegou as mãos nos bolsos. Sentiu novamente a chave no bolso direito. Pesada. Já tinha o que queria. Podia sair quando quisesse. Não era um traficante. Era um simples intermediário. Uma peça facilmente substituível.
Ao longe, na esquina, esperava-o já o Giz, assim alcunhado por ter o indicador da mão esquerda despigmentado. Uma vez tentara brincar com o nome, mas o olhar fulminante do outro travou-lhe a gargalhada. O outro passou-lhe o pacote para as mãos e, quando ia já a virar as costas, ouviu um fio de voz dizer:
- É a última entrega que faço. Quero sair.
A dureza do olhar do Giz fê-lo gelar, empalidecer, temer pela própria vida. Não conseguiu sustentar o olhar, baixou a cabeça, fixou a biqueira dos seus sapatos castanhos. De mãos nos bolsos, viu os pés do Giz afastarem-se com passos apressados, na mão o telemóvel. Respirou fundo e foi-se embora fazer a entrega. A última entrega. Sentia um misto de medo e de alívio. Não sabia muito bem como interpretar o silêncio do Giz, mas não conseguia deixar de sorrir. Estava livre. Finalmente livre. Não precisava mais de temer que algum colega, nalguma rusga, o apanhasse em flagrante. Nunca se atrevera a pensar nessa liberdade, a desejá-la sequer. Mas estava a saber-lhe bem sentir-se mais leve. Lá estava a tasca onde o Dente de Ouro o esperava. Sentou-se à mesa com ele, bebeu um bagaço para aquecer, falaram do jogo da noite anterior enquanto pousou o pequeno pacote no meio das páginas do jornal desportivo que o outro colocara em cima da mesa e saiu.

        Ao dirigir-se para casa, olhava as ruas escuras iluminadas pelos candeeiros, as montras bem decoradas, a neve em pequenos montinhos na berma das estradas. Estava uma noite bonita. Em sentido contrário, viu, entretanto, aproximarem-se dois sujeitos de aspeto estranho, gorro na cabeça, cigarro no canto da boca, a barba por fazer, um andar atirado para a frente. Parecia que vinham na sua direção. Tentou desviar-se discretamente, mas estes permaneciam na sua direção. Olhou em redor. Não havia ninguém na rua. Os dois fixavam-no, um olhar ameaçador. Procurou o telemóvel. Retirou-o e colocou o número da esquadra pronto a efetuar a chamada, o dedo na tecla, era só carregar e gritar, esperar que o ouvissem e fossem socorrer. Continuou, hesitante, os dois à sua frente, olhos nos olhos, um de cada lado, ele no meio, o dedo na tecla, a carregar na tecla, os dois atrás dele, os dois já longe dele, a voz do telefone, o sangue a cair aos pés, a fazer formigueiro nos pés, a voltar a subir novamente, o coração aos pulos, a procurar o ritmo normal. Guardou o telemóvel no bolso esquerdo, esquecido da voz, não ouvia a voz, só a sua, a da sua cabeça, estou inteiro, estou inteiro, já passaram. Caminhou durante algum tempo, os sentidos alerta, à escuta de qualquer ruído suspeito, atento às sombras, o medo escondido debaixo da gabardina, guardado na boca fechada. Ouvia ao longe uma sirene. Sempre inquietante o gemido das sirenes. Cada vez mais perto, a passar ao seu lado, a virar na esquina seguinte, ao fundo da rua, prédios altos, num deles a sua casa. Fumo. Havia fumo. Apressou o passo. Não aguentou, teve de correr. Olhou para trás. Virou à direita. E parou. Procurou as chaves no bolso da gabardina e apertou-as com força. Alguém incendiara um carro. O seu carro.

(SV)

         

          Nem foi por mim. Nem por ti. Nem por... Foi pela chuva. Pela forma como a ouvi cair. Uma convocação. Estranha. Longínqua. A pedir que a acompanhasse. Olhava a rua no nosso diálogo feito de solidões infinitas. A água que escorria pela janela desfigurava a realidade exterior que nos vigiava. E o mundo passava a ser esta massa descomunal, pastosa. Lá fora. Aqui dentro. Saí. E quando passei pelo enorme vidro ainda vislumbrava a tua boca aberta pelo espanto de tão súbito e intempestivo movimento. E misturaste-te com os reflexos da rua onde me falava a chuva. E continuei. E deixei de te ver.
   Não me recordo do tempo em que errei à volta de mim próprio. A noite. A solidão das lâmpadas pingava dos postes lacrimosos. Pequenas poças de água refletiam a melancolia de noites ainda por viver. Havia pessoas que abraçavam o abandono do fumo de pequenas chávenas de café quente, em pequenos bares de ar duvidoso. Olhava a estrada molhada. Fugiam-me as linhas brancas, tontas. Encontrei-me em becos, sentado, em pensamentos de um passado em que te queria viver. Quis tanto viver-te. Perdi-me em vastas praças carregadas de cheiros incógnitos. E continuava, sentindo o peso cada vez maior do cansaço. Observava, com desconfiança, os nomes das ruas. Afinal, era possível perder-me nesta cidade que julgava tão minha, sem surpresas, agora tão anónima. Porque o que nos faz amar a cidade é a forma como a beijamos, como ela nos abraça, como nos segredamos, no fim, como nos desnudamos, numa desinibição tão confortável, desejada. Sentia a bofetada das luzes dos carros que espirravam a água adormecida no alcatrão. O latejar dos pés rabugentos, abatidos. E ia reconhecendo os meus passos que teimavam em caminhar nas ruas por onde já passara. Há pouco? Não sei. Será que tudo acaba onde começa? Porque vivemos em círculo. Em círculos. Como pequenos satélites à volta de uma lua à volta de um planeta à volta de mim à volta de ti à volta de nós. À volta. E a chuva parara. Nem dera por isso. A voz primitiva e longínqua que me chamara também. E, agora, o mesmo vidro que tinha abandonado no dia anterior. Irias hoje? E entrei. Estavam vazios os pequenos sofás que tantas vezes nos têm acolhido. Encostados à montra onde temos visto passar os carros, os elétricos, as pessoas que se penteiam descuidadamente. Talvez venhas. Com as ruas desta cidade que agora se veste de manhã-Primavera. Espero-te.


(Olá. Olá. Está vago este sofá? Posso..?)

(PM)

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