segunda-feira, 2 de julho de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...


Joan MIRÓ, "Blue III"




No meu sonho

Eras feito de azul:

Os teus pés tinham a cor

Da liberdade do céu

E as tuas mãos,

A inquietude do mar.

Vesti-me de azul

E dei-te um abraço

Que queria eterno.

Mas o meu vestido

Tinha um traço azul-viagem

Que percorreste até ao infinito

E não mais te vi

Senão no meu sonho

Azul, azul, azul...




(SV)








O foguete eleva-se no ar. O estrondo, primeiro. A seguir, as cores. Começa com o vermelho, que se espreguiça timidamente para depois abrir os braços em linhas multicolores.

– Viva! Viva! Olha! Olha! Olha como ele voa!!

Sim. Vejo-te. É mais alto este prédio. Ainda há pouco chegámos. Foram muitas horas na estrada. Fomos jogando “às letras”, como tu gostas, dando nome às matrículas dos carros com os quais nos cruzávamos. Fizemos feias, horrendas caretas aos burros que puxavam pesadas carroças. Latimos para os cães, que logo nos perseguiram. Afinal, era um atrevimento! Olha se eles começassem a conversar. Parámos não sei quantas vezes. Por tudo. Por nada. Quiseste apanhar uma pedra para a tua coleção, quase fizeste birra. Perguntaste-me quantas-vezes-mil se demorava muito. E agora?... E agora…? Adormeceste enquanto te embalava a longa estrada. O vento quente que nos acompanhava ia-me quebrando os monólogos que travava com a minha companhia invisível. Sim. Foram muitas horas na estrada. Mas chegámos.
– Uau! Deixa-me ir para a piscina, deixa. Já sou grande, não me afogo. E eu sei que vais ficar na varanda a ver-me, não é?... Não é?
Sim. Sabes que sim. Que vou estar aqui na varanda a ver-te. Gostas de mergulhar até ao nariz. Gostas de colocar a palma da mão direita na cabeça e imaginares peixes indefesos que logo gostas de atacar com cócegas. És um tubarão muito amigo, sempre. É só o cabelo que te vejo agora. Imóvel. Assusto-me. E quando te vou chamar, surges. Como um foguete. Como o vermelho que acabou de rebentar. Nesta festa que há hoje. A propósito de um santo qualquer. Uma história estranha. Como são todas as dos santos das aldeias. Uma ponte que se ia partir ao meio no momento em que alguém a ia atravessar. Levava pão numa carroça. E peixe. E vinho. Para uns doentes do outro lado. O grito. Uma luz vinda não sei de onde. E a festa, agora, todos os anos.
– Olha, aí vai outro. Sobe, sobe mais alto! Ena, ena. Está quase… é agora… pauuumm!! Olha, olha! Também quero ser um foguete, voar até às estrelas.
– Mas assim vais rebentar e isso não tem piada nenhuma. – respondo-lhe, a sorrir.
– Mas eu sou um foguete especial. Lanço sorrisos quando rebento mas volto logo a ficar bom. E como se eu fosse um mágico. Olha, aí vai outro… pauuumm!!!!
E ri. Ri como só as crianças sabem rir. Sim. Gosto do teu riso no meio de tanta água. Daqui a pouco seremos mais. Não tantos como o fomos o ano passado. Porque a vida é cruel, por vezes. Porque é preciso ser como um foguete, subir, subir. E rebentar em sorrisos. Para depois, como que por magia, estarmos bem, de novo. Inteiros.
 
Olho o horizonte-presépio. Chegámos. Sim. Rebenta mais um foguete. E outro. Sobem cada vez mais alto. São cada vez mais as cores. Continuas a rir, na piscina. A atacar indefesos peixes que riem cada vez que lhes tocas nas guelras. E há uma plenitude de festa dentro de mim. De nós.

(PM)

1 comentário:

Anónimo disse...

...sente-se o mar...o céu...de tão azul...
gostei...muito!
M.