segunda-feira, 25 de junho de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...


Nigel Van WIECK, "Q-Train"


Sorriu com amargura ao observar o seu reflexo na janela. O comboio levava poucos passageiros e na carruagem onde seguia só já estava ela. A única senhora que lhe fazia companhia desde o Oriente acabara de sair. Tinha um ar infeliz, os lábios como que comprimidos, as pontas viradas para baixo, os olhos pequenos sem brilho. O cabelo, curto, oleoso, raro, colava-se à cabeça redonda, dando-lhe um ar miserável.
Observou-se com mais atenção. Era uma mulher bonita, atraente. Os seus cabelos castanhos brilhavam sob a luz artificial do comboio e o vestido que envergava acentuava-lhe as formas bem delineadas. Sorriu. E não gostou. Era um sorriso forçado. Triste. Vazio. Vazia. A  sua vida. Não compreendia como podia ter chegado àquele beco, sem saída à vista. Não imaginara nada daquilo para si, quando ainda sabia sonhar. Queria ser advogada, como aquelas personagens que via nos filmes, uma vida agitada, cheia de intrigas, mas com amigos verdadeiros que estavam presentes na altura certa, com quem se podia conversar, rir, chorar, beber um copo à noite, num bar acolhedor, com alguém a tocar saxofone ou piano. Acabara a atender telefonemas e pessoas numa clínica dentária que fechara as portas naquele dia. Desempregada. Desempregada. A palavra soava-lhe mal. Era feia. E pesada. Sentia-se como quando se divorciara. Aquele estado civil parecia ter-se-lhe colado na testa e sentia que toda a gente que passava por si sabia que se tinha divorciado. Que tinha falhado. Na vida. A pessoal. E agora a profissional. Queria um amigo para ir tomar um copo. Como nos filmes. Mas cada um tinha a sua vida. A sua família. Não se recordava de os amigos que apareciam nos filmes terem família. Família... Imaginava já o rosto de deceção do seu pai quando lhe contasse mais este falhanço. Não. Não iria contar. Ninguém saberia que estava desempregada. Haveria de arranjar outro emprego. E nesse emprego haveria de conhecer amigos sem família, que lhe fizessem companhia à noite, quando a solidão se instala e ecoa por todos os lados. Não gostava da solidão. E, no entanto, era ela a sua melhor amiga. É curiosa a forma como a vida nos impinge, subtilmente, aquilo que não queremos. Fecha uma estrada e, contentes, seguimos pela outra estrada disponível, como se tivesse sido uma escolha nossa. Começamos a tropeçar em obstáculos e, satisfeitos, aprendemos a contorná-los, sem nos apercebermos de que estamos a ser conduzidos. E aos poucos vamo-nos conformando com o pouco, o horizonte cada vez mais perto, cada vez mais estreito. E ela era aquilo. Um riso escarninho da solidão.
Por que não partia o comboio? Não sabia precisar há quanto tempo estava parada, mas sabia que já estava no mesmo sítio mais tempo do que seria normal. Levantou-se. Em que estação estaria? Já teria chegado ao destino? Estava escuro lá fora. Escostou a cara ao vidro, as mãos em concha à volta dos olhos. Havia alguém lá fora. Estariam à espera que entrasse? Um polícia. Que se passaria? Dirigiu-se para a porta. Com o indicador, carregou no botão. As portas afastaram-se. Um grito. Um tiro. Alguém que corria na sua direção.
- Quem é que abriu as portas? Eu não disse para trancarem as portas?
Vozes. Ao longe. O horizonte tão perto. E o riso. De novo o riso. Para sempre.

(SV)



É curiosa a forma como a realidade se vai distorcendo enquanto escorre a chuva pelo vidro. Os pequenos arbustos tornam-se, subitamente, linhas choradas. A chuva que oiço, agora, bate sobre este teto de acrílico como se do fim do mundo se tratasse. E, da mesma forma surpreendida como chegou, partiu. E o sol regressa. E tudo parece mais claro, mais alegre. O rio adormece, os pequenos veleiros voltam a passar tranquilamente, os cacilheiros cruzam o rio para o outro lado e a vida retoma o seu respirar pausado, sem incidentes. As ninfas voltam a surgir como leve espuma, as crianças retomam as suas tropelias em cavalos voadores, carregadas de esperanças e mundos-feitos. E os vidros, que escorriam a realidade lá fora, voltam a projetar, nesta tela envidraçada, um mundo menos denso, mais puro, inocente até. E os turistas, que em cardume se escondiam debaixo das árvores, voltam a olhar os monumentos que os fizeram levantar cedo, que os fizeram ir conhecer outras paragens, porque os move a Grande Paragem. A todos nós. Tal. E. Qual. Sim, o sol volta a sorrir. Oiço a mesma música, as mesmas músicas. Aqui, neste palco de ripas de madeira escurecida pelo brilho da humidade. No carro, há pouco. “Us and Them”. Pink Floyd. “Blue Paper”. Moby. E a lembrar-me de Hiroshima, do quarto, vês, lá no alto, a contemplar o escorrer de lágrimas de uma humanidade animal, primitiva, a chorar o que não somos, o que somos, a chorar as saudades de um local distantemente longínquo, enquanto o som tranquilo de outra água, a Água, se libertava do pequeno televisor que se encontrava em cima da mesinha. Sim, há momentos assim. Definidos pela audição de Pink Floyd numa estrada varrida pela chuva, enquanto o horizonte sonha pesadelos negros e sedosos. Porque podem ser dias felizes, alegres. Pela plenitude estranha que nos invade. Dias em que observo as mãos que seguram o volante e sentir que me posso deixar ir, abandonar. Sim. O abandono. Sabes, é isso que me dizes, hoje, rapariga que te encontras sentada num banco de um comboio – apetece-me que seja um comboio – de olhar baixo, pensativo. Que histórias me contarias, tu, hoje, nesta manhã de horizonte negro e alegre? Convidar-te-ia para este pequeno-almoço, simples, feito de um galão escuro e morno, de uma sandes feita de um pão quente acabado de cozer, crocante, muito crocante, com fiambre – se não se importa, com um pouquito de manteiga, está bem?. De onde virás? És simplesmente bonita. Sinto-te abandonada nos teus pensamentos. Talvez estejas apenas assim. Sem que isso seja, obrigatoriamente, motivado por qualquer razão estranha e estupidamente-Vida. Poderás estar feliz. Como se pode realmente estar no meio de um remoinho. Porque o centro está sempre calmo. Olho-te, mais uma vez. Não te sei as horas. Não te sei as horas. E deixo-te, por segundos, nas tuas aparentes recordações para me perder, de novo, na saída deste enorme barco em direção a um destino que desconheço. Esconde-se, por momentos, atrás de uma parede para voltar a surgir, gracioso, metálico, imponente e divino, enquanto a Espuma-Mulher ri, sedutoramente, para a sua superfície. O azul. O vermelho. E afastam-se, enormes, as letras que te dão nome, SCF. Há dois pequenos barquitos que parecem seguir-te, traquinas. Mas não. Sei que não. Acompanham-te, apenas. São momentos raros estes. Estranhas companhias tornadas, lado a lado, pontos de uma bússola, cuja agulha os vai ligando, como beijos, únicos, sentidos. Desejados. Tão sofregamente suspirados. Coincidências da vida. Também tu, rapariga que agora vais no comboio. Também tu me fizeste vir para aqui, hoje. Uma pequena casa feita de paredes de vidro onde escoa a realidade. Volto a olhar-te. Anda. Senta-te. Conta-me quem és. O teu abandono. Conta-me as tuas horas. De que tempos te vestes? Que segundos transportas na pequena mala que não vejo? És nova. (Já parece tão pequeno o barco, ao fundo…) tens um ar de menina marota. Sentas-te sem pudor. E eu que não consigo despegar-me do barco que se afasta, sinto-me como ausente de mim próprio. (É-me familiar…). Que indecisões te transportam, neste comboio quase vazio? Porque não fazes o que te apetece? Anda, senta-te, vem. Estou só, também. Um comboio. Um barco. Uma mesa feita de pensamentos-viagens  vertidos, como nos vidros para os quais olho. Volta o sol. Eleva-se um fumo brincalhão do chão, lá fora, de madeira. Imagino o faroleiro que faz adeus ao barco que deixei de ver. Anda, rapariga do comboio. Passeia-te sobre estas linhas, como carris. Mergulha neste azul feito de pequenas impressões.
Levanto-me. Vou. Vejo as janelas de água nas estradas. Um mundo ao contrário. Sorrio. De novo este peso-onomatopeia agradável na minha mão. E sorrio. Sorrio. Acariciam-me as pequenas gotas que teimam em cair. Plim… plim….
(PM)

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