quinta-feira, 26 de abril de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...


Vincent VAN GOGH, "Os Sapatos"


(Em jeito de mim próprio)

                - O que te faz lembrar?
                - Carrinhos!
                - Carrinhos? Quais carrinhos?
                - Sim, carrinhos. Daqueles de ferro, pequenos. Com cores.
                - Mas…?
                - E tampas de plástico. Umas grandes que havia e que eu fingia que…
                - O quê…? – interrompeu-me.
                - … fingia que eram carrinhos.
                - Mas isso é estranho, não tem nada que ver com…
                - Sim, eu sei o que queres dizer. Sabes, era com eles que eu fazia as minhas pistas. Ia buscá-los à dispensa, aos quartos, a todo o lado. Depois, voltava para o pequeno quarto, estendia-os ao longo do chão e…
                - E depois… depois…? Mas as pessoas…?
                O homem que se encontrava na mesa ao lado tinha um ar feliz. Havia um sorriso que o não largava. Outras vezes olhava para a senhora que se encontrava atrás do pequeno balcão que ora vendia os bilhetes para o museu, que já estava fechado, ora ia tirando as contas dos galões, sandes, empadas. E outras coisas.
                - E depois…? – perguntava ele, cada vez mais curioso mas com um olhar desconfiado.
                - Então, como te dizia, juntava-os todos. Como se fosse um carreirinho de formigas. Até fazia pontes, vê lá. Era muito divertido.
                - E as formigas deixavam?
                - Mas quais formi… não…, estava só a dar-te uma ideia como os colocava. E então… Mas o que estava eu a dizer? Estás a ver, já me esqueci…
                - Mas eu não estou a perceber nada… estavas a falar em pontes, depois formigas e agora…
                - Ah, é isso! – gritei.
                -Mas quais pontes? – perguntava-me, em desespero.
                - Então, olha lá, se colocares este assim… agora aqui este… e este por cima fica um buraco no meio. Estás a ver?
                - Pois é, pois é! Parece uma ponte!
                - Estás a ver como tinha razão… tens que ter calma. Depois de fazer a pista, com pontes, curvas e contracurvas, pegava nas tampas grandes ou nos carrinhos e…
                - Brincavas sozinho?
                - S… s…s…iim… nas maior parte das vezes. Sabes que quando somos crianças é muito fácil termos sempre alguém ao lado, mesmo que estejamos sós e…
                - Mesmo que quê? – perguntou-me, com os olhos arregalados.
                - Mesmo que esteja… não interessa, deixa lá.
                - Eu também brinco muitas vezes sozinho. – mas nunca estou bem sozinho, é assim… não sei explicar.
                E logo me falou sobre seres com nomes estranhos, povos distantes e diferentes, uns que rodavam e quando se gritava batiam noutros e ganhavam. E havia um brilho imenso nos seus olhos, os seus pequenos dedos dançavam no ar, como um pequeno maestro que dirigia a sua orquestra mágica.
                - Pois, eu não tinha nada disso, sabes? Passava horas a brincar com os carrinhos nas pistas que fazia, lá no quarto.
                - Mas não se constipavam?
                Solto uma gargalhada. Recordo, subitamente, toda a gente a andar descalça pela casa.
                - Oh, já não me lembro, o clima também era diferente, sabes? Até nos sabia bem. E eu sempre gostei de andar descalço pela casa.
                - Eu também gosto mas não me deixam como eu queria.- queixa-se.- Mas e agora, o que vais fazer com eles?
                Olho-os, de novo. As memórias. Os sapatos. Gastos. Já viveram tanto. Caminharam ainda mais. Há uma velhice melancólica que os veste. Toco-os, com medo de os acordar. Espreguiça-se, logo, o tímido pó. Vruumm… vruumm… iiiiiii…. Iiiii… pam!...
                - Não sei muito bem o que vou fazer com eles, agora que os encontrámos nesta mala velha. Mas tenho uma ideia. Anda.


É noite. Acabei de me deitar. Rio sozinho. Ficou toda a gente descalça, hoje.
- Podemos guardá-los no meu saco de brinquedos? Assim podemos repetir.
- Está bem, é uma boa ideia, puto.
Adormeço. A noite, descalça, caminha agora ao longo de uma pista circular. Sem pausas. Sem pontes. Descalça. Descalça.


(PM)



Estava um dia quente, demasiado quente para um dia de abril. Na véspera recebera um telefonema da mãe a pedir-lhe que fosse lá ter. Não podia recusar. Não sabia recusar-lhe nada. Desmarcou a ida à exposição que já tinha combinado com a Sara e lá foi ela, estrada fora, braço a lutar contra o vento como sempre gostara de fazer. Raramente ligava o ar condicionado quando ia a conduzir o seu carro cinzento metalizado. O ar parecia-lhe artificial, como se mantivesse a porta do frigorífico aberta. E impedia-a de colocar o braço na janela. Quantas vezes se esquecia de que tinha a janela fechada e batia contra o vidro!
Já há algum tempo que não fazia aquela viagem. A paisagem era maravilhosa, naquela altura do ano. Todos os campos estavam verdes, respiravam viço, alegria, energia, refletiam a luz do sol, enchiam a alma. As árvores começavam a ficar repletas de rebentos novos de folhas, as flores enchiam a terra de cor, os campos lavrados adquiriam, por vezes, tonalidades diferentes, conforme a cor da terra e a direção em que fora lavrada. Tudo parecia entoar um hino à vida!
A viagem ainda era longa, mas com a música ligada quase não dava por ela. Via já, ao longe, as casinhas baixinhas, de pedra, cinzentas, dispostas sobre o comprido por cima do monte. Já poucos campos havia lavrados. Ali, mesmo com o sol a sorrir, respirava-se a morte. Muitas das casas permaneciam fechadas, algumas tinham um ar abandonado, outras tinham já paredes derrubadas ou tetos caídos. Os campos, outrora tão disputados, eram agora uma massa aflita de giestas e silvas. E as pessoas, as que restavam, carregavam consigo o peso de uma vida longa, que já vira demasiado e que, com dificuldade, se adaptava aos tempos atuais.
Estacionou o carro no largo e foi a pé até ao local onde a sua mãe a esperava. As ruas, de terra batida, eram agora demasiado limpas, sem animais a circular por elas. Abriu o portão preto e entrou para o quintal. À porta, os sapatos, como que a dar-lhe as boas-vindas. Estacou a olhar para eles. Estavam velhos e a cor já mal se distinguia – um castanho com manchas, da cor da terra que tantas vezes haviam pisado e que agora guardava o corpo do seu dono. Agachou-se, pegou neles. Quantas vezes havia ela caminhado ao seu lado, corrido à sua frente, amparado o seu passo incerto e indeciso... Contornou a casa e, na parte de trás, sentou-se no muro com os sapatos ao seu lado. Contemplou as flores que teimosamente iam florindo ano após ano, mesmo sem ninguém as tratar. E olhou com carinho as árvores que ele plantara e das quais cuidara. A nogueira, enorme, continuava a dar nozes, a encher sacas de nozes. E as macieiras todos os anos davam belas e deliciosas maçãs verdes, com um sabor que ela tão bem guardava na memória e que nunca encontrara em nenhum outro fruto. A erva crescia, livre e rebelde, pelo quintal, como que a escarnecer do esforço que o seu avô despendera uma vida inteira naquele espaço.
Olhou para os sapatos. Então, como que tomada por uma raiva, saltou para o chão e começou a arrancar as ervas. A terra estava mole, graças à chuva que caíra havia dois ou três dias, e a erva desprendia-se do chão com relativa facilidade. Começava já a transpirar, as mãos doíam-lhe, as costas começavam a pedir algum descanso. Estava naquilo há meia hora e ainda não dera conta que chorava em fio...
Deixou-se cair no chão, sem forças para continuar, os olhos embaciados, a cara cansada do esforço de chorar. Enterrou a face nas mãos e continuou a chorar a ausência do avô. Ou seria a sua presença? Porque ali ela encontrara o avô em tudo o que via – primeiro nos sapatos, depois nas flores e nas árvores. Tudo isso o tornava vivo. Só as ervas lembravam a sua morte. Por isso lutara contra elas. Em vão.
Sentiu uma mão no ombro. Era a mãe, que a observava há já algum tempo em silêncio. Sorriu e estendeu-lhe a mão para a ajudar a levantar-se.
- Continuamos? – perguntou, a sorrir, olhando para a erva.
Ainda a chorar, esboçou um sorriso. Lançou um olhar aos sapatos do avô, que continuavam no muro, como que a observá-las. E voltou a vergar as costas, para arrancar do quintal do seu avô o espectro da morte pela raiz...
(SV)

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