terça-feira, 24 de abril de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...


Georges Pierre SEURAT, "O Circo"

Na vida podemos ter várias paixões, vários amores. E só nos apercebemos de que não são todos iguais quando temos que optar. O pai ou a mãe? O irmão ou a irmã? O Português ou a Matemática? Morangos ou cerejas? O meu país ou outro estrangeiro? Este emprego ou aquele? Sempre fora assim, a sua vida. Um mar de escolhas. Algumas delas não chegaram a ser bem escolhas – na verdade, a vida quase que o empurrava para aquelas bifurcações com uma única seta. E tudo o resto ia ficando para trás, num amontoado de recordações. Mas desta vez a escolha cabia-lhe. Era ele que decidia para que lado queria a seta. E ele já havia feito a sua escolha. Nessa noite. Nessa noite colocaria a seta virada para o lado que ele escolhera.

Naquela tarde de muito calor, as pessoas iam-se aproximando da tenda, numa alegria expectante. As crianças deliciavam-se com os gelados e as pipocas e corriam a ver os animais enjaulados. O leão branco era sempre a grande sensação! Afinal, não é todos os dias que se vê um leão branco. Mas os belos cavalos que o dono do circo adquirira e tão bem tratava também eram merecedores dos olhares de admiração do público.

Ele gostava de observar as pessoas a entrar na tenda. Não podia fazê-lo durante muito tempo, pois tinha que se preparar para a atuação, mas de alguma forma dava-lhe confiança ver o entusiasmo das crianças. Só que desta vez não procurava só o entusiasmo das crianças. Tentava distinguir por entre tantas cabeças e rostos diferentes, aquele que conhecera há um mês na tendinha das pipocas. Naquele dia, o colega que vendia as pipocas adoecera e ele fora substituí-lo. Ela aproximara-se, decidida, um ar jovial, os cabelos soltos.

- Um pacote de pipocas, por favor.

Não conseguia despregar os olhos dela. Uns lábios vermelhos, tão bem desenhados. Um sorriso perfeito, nem grande nem pequeno. Uns olhos cor de mel onde via leões, savanas, doces ocasos. Perguntara-lhe o nome. Convidara-a a conhecer o circo. E não mais se separaram. Ela ia sempre vê-lo todos os dias e antes dos espetáculos passava por lá para lhe desejar sorte. Já há um mês que assim era.

Mas aquele era o último dia de espetáculo naquele local. No dia seguinte começariam a desmontar o material todo para partirem para outra localidade. Quando ele lho dissera, ela chorou, pediu que ficasse. Mas como podia ele ficar? A sua vida era o circo. Não sabia fazer mais nada. De que viveria? Onde moraria? É verdade que não estava habituado a facilidades. Mas nunca colocara a hipótese de viver sem o circo, sem os seus amigos e companheiros de profissão... e de vida! Mas também já não se imaginava a viver longe dela, sem ela. Embora não lhe tivesse dito nada, já há uns dias que andava pensativo, angustiado, sem saber o que fazer. Não valia a pena pedir conselhos aos seus amigos circenses. Ele sabia a resposta que lhe dariam. Todos eles.

- Por que não vens comigo? Ficas na minha roulotte, moramos lá os dois.

Mas ela não queria deixar o seu emprego. As coisas estavam difíceis. E muito menos viver à custa dele. Isso nunca! Gostava da sua independência. Decidiram não falar mais do assunto. Iam pensar, ambos. E no dia seguinte, quando se encontrassem depois do espetáculo, cada um contaria a decisão que tinha tomado.

Ele não dormira toda a noite. Estava nervoso, indeciso. Gostava tanto dela. Sabia que um amor à primeira vista como o deles era muito raro e não acontecia a todos. A única vida que conhecia era aquela. Pertenciam a mundos diferentes, era um facto. Mas tudo nesta vida podia ser alterado. E ele sabia de casos. Às vezes, à noite, no verão, juntavam-se todos para apreciar as estrelas e o luar e havia sempre quem contasse histórias de desertores. Umas felizes. Quase todas infelizes. Todos se riam. Mas ele estava convencido de que, lá bem no fundo, cada um deles já sonhara em desertar, em deixar aquela vida nómada e difícil. Estava decidido. Deixaria o circo. Lutaria pelo seu amor, tentaria uma vida diferente.

Alguém se dirigia na sua direção. Mas não parecia ela. Não era ela. Quem seria? Olhou à sua volta para se certificar de que não havia mais ninguém por ali.

- Olá. Trago-te esta carta. Ela disse que sabias de quem era. Adeus.

O mundo parou de girar naquele momento. Não compreendia. Por que não viera ela? Estaria doente? O espetáculo não tardaria a começar. Não sabia se devia abrir a carta já. Mas não aguentava de curiosidade. E se fosse uma má notícia? Se calhar era melhor esperar para depois. Ficou ali a ver a rapariga desaparecer no horizonte com aquele invólucro na mão. Uma voz. Alguém o chamava. Tinha que se ir vestir. A carta ardia-lhe nas mãos. Não podia aguentar. Tinha que a abrir.

- Senhoras e senhores! E depois deste magnífico espetáculo dos acrobatas... um aplauso para o nosso domador de leões!

O chicote, brando, mal se mexia. O jovem domador corria de um lado para o outro, na jaula. O leão, parado, rugia, feroz. Depois, começou a andar em círculos, os olhos fixos no rapaz, os dentes arreganhados. O chicote estalou. À sua frente, uns arcos de fogo ardiam, infernais. O chicote voltou a estalar duas vezes seguidas e o animal saltou para o meio de um dos arcos de fogo. Estridentes aplausos e assobios fizeram-se ouvir imediatamente. Não podia parar. Saltou para o dorso do leão. Era sempre um risco. Sentia o público com a respiração suspensa, os olhos presos nos dentes da fera. Estalou novamente o chicote. A besta começou a andar, sempre rugindo, virando o focinho, tentando apanhá-lo. Estava inquieto, o bicho. Dizem que os animais sentem o nosso estado de espírito. Talvez. Talvez ele tivesse pressentido a sua intenção de fuga. Talvez o leão tivesse cheirado a traição de que o seu domador fora alvo. Ela não viria. Não viria nessa noite. Não viria nunca mais. Estalou o chicote. O leão subiu três degraus, avançou em cima de uma plataforma esguia. Não queria afastá-lo do seu mundo. Dos seus amigos. O animal hesitou perante os degraus que tinha que descer. Não lhe cabia a ele decidir? Afinal a vida era sua. Era ele quem devia tomar as decisões. Estalou o chicote no ar com força.

Ninguém viu bem como tudo aconteceu. O animal tentou inverter o sentido da sua marcha e caiu da estreita plataforma. O jovem tentou agarrar-se, bateu com a cabeça na plataforma, começou a sangrar. De repente, uma pata do leão sobre o seu peito, a boca enorme aberta, a sua mão à procura do chicote. O público gritava, levantava-se, algumas senhoras saíam com as crianças, uns homens corriam para tentar acudir. O pessoal do circo tentava acalmar os ânimos, mas a confusão estava instalada. Alguém surgiu com uma pistola com dardos para adormecer o bicho. Mas o pior já tinha acontecido. O leão já fechara a boca antes de ter adormecido. A mão. As pernas. Chamem uma ambulância! Chamem uma ambulância! Por favor, chamem uma ambulância!

A decisão estava tomada. E a vida encarregou-se de colocar a seta antes do anoitecer...

(SV)





Sim, pai. Vou tentar fazer tudo como me ensinaste. Parece fácil, assim, sabes? Balanço na corda, uma e duas vezes, talvez três, olho atentamente para o outro rapaz. Quero acreditar que verei rapidamente a terra e este céu cheio de cores, pelo menos duas vezes e que o salto no vazio será acolhido por duas mãos fortes. Depois, deverei recuperar uma postura elegante. E agradecer. Sim, as palmas. Que são o que nos resta sempre no final. As palmas. Sim, pai, parece tão fácil, assim, quando mo explicas. Quando o fazias. Sei que vais aí estar. Afinal, no fundo, serão sempre as tuas mãos a acolherem-me. E aqui, agora, observo-os. Curioso. O olhar daquela menina de cabelo laranja. Parece que me sorri, de vez em quando. Só ela parece saber que estou aqui. Já falta pouco. Tremo…

O sorriso… nunca te esqueças de sorrir. É importante que o tenhas, sempre. Sim, mãe. Lembro-mo de mo dizeres. Tenho-o procurado. Forçado. É ele que me ilumina a alma, de vez em quando. Mas, mãe, nem sempre é fácil. Porque há pequenos momentos em que acho que vou mesmo cair e magoar-me. Continuo a ter muita dificuldade em equilibrar-me em cima deste anjo alado. Acho que ele sabe que isso acontece por vezes e nessas alturas acho que voa. Deixo de lhe sentir as patas. Deixo de ter medo. Mas este é sempre o momento que me faz concentrar mais. Tenho a fita na mão. Mais uma volta. Agora… lanço-a ao ar. Como dança suavemente no ar…
(…olho-te, aí, em cima…)
Ao mesmo tempo, ponho-me direita, agora sinto o tropel e… upa… num pé só! Só mais uma volta e já está. O público. Vejo-o no escuro. Que miúda engraçada aquela. Tem a mesma cor do meu cabelo. Quem será…? Meia volta e… já está. Ainda não foi hoje que caí. Gosto das palmas.
(Achas que correu bem, mãe, achas? E sorri, mãe, sempre, como tu me dizias. Sorri. E voltei a sentir-me com a tua pequena chama, brilhante, mãe. Brilhante.)

Não me apetece nada disto, hoje. Nada. Esta tinta na cara incomoda-me! Esta laca pastosa no cabelo. Pronto, lá vem ele outra vez. Lá vou levar mais uma estalada! Sim, riam-se. Riam-se. Quem a leva sou eu, não são vocês. Porque não vêm para aqui? E se fosse hoje, eu, sim, eu, a dar-vos uma estalada? Maldito chicote. Detesto que ele tenha o chicote. Ontem deste-me mesmo com ele. Nem te apercebeste da vergastada. Se mo fazes de novo, hoje, não sei se me aguento. Quero sair daqui. Limpar a cara, deixar este sorriso idiota. Estou cansado de toda esta gente. Sinto-me uma autêntica aberração. E olha aquele, no público. Parece um macaco. Rio por dentro. Bom podias vir para aqui, ó macaco! Colocava-te numa jaula e fazias imenso sucesso. Macaaaco!... Macaaaaco!... fazes-me rir. E aquela menina, porque não sorri?... Porque me olhas tão séria, menina?... Porque não te alegro eu? Quem és tu, menina?
Será que é hoje que ele me vai pedir em casamento? Nem olha para mim! Será desta pluma branca no cabelo? Parece estar divertido. Mas tão ausente. Trouxe-me. E a entrada foi tão cara! Era tão bom, realizar o meu sonho. Desde menina que o sonho. Parecia-me contigo, menina que olhas tão séria, menina do cabelo laranja.
Que bonito, mãe! Que bonito! Podemos voltar amanhã, mãe? Sim?... Sim…? Vais tentar, mãe, trazer-me amanhã, de novo?... Que bonito, mãe. Que bonito!... Gosto tanto do teu sorriso, mãe. Vimos outra vez, amanhã? Vimos?...

(PM)

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