segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...


Andrew SAUR & Angel Sarkela-SAUR, "Tremors"

Enquanto aqueço as mãos na chávena de chocolate quente, olho a janela embaciada e pressinto a chuva a cair lá fora, a esbarrar contra os vidros, a escorregar lentamente em dedos múltiplos que se atropelam. Adivinho as formas do castelo ao longe, os montes, as árvores depidas. Molhadas. E aprecio o aconchego deste café rústico, mesas de madeira tosca, com nós largos e abundantes, tábuas grossas e frinchas entre elas, bancos longos de madeira igualmente grossa e tosca, traves à mostra, balcão pequeno de madeira, chão em pedra granítica, lareira acesa numa lenta dança de toques sensuais... 
Gostava que conhecesses este lugar, que sentisses a paz de cada objeto, que aquecesses as mãos numa chávena como esta (quantas almas-mãos terá ela já aquecido? Quantas esperas terá ela ajudado a suportar?)... Mergulho o pensamento neste chocolate líquido, de formas tão voláteis, mas tão intenso, tão doce ao paladar, tão quente na alma, tão escuro como os teus olhos. Revejo nele toda a meiguice e doçura do teu olhar e é quase como se aqui estivesses. Sinto-o em mim como um abraço sem palavras, um convite, um desejo de abarcar a eternidade. Ou para sempre. 
Agarro na colher, braço esguio, e agito em remoinho as águas castanhas desta chávena. Levanto a colher e deixo cair, em fio, um pouco desse líquido-tu, quente e doce, enquanto te sento à minha frente, te observo o rosto moreno, te beijo na penumbra sonolenta deste lugar. Levo a colher à boca. A escaldar ainda. Cada vez mais. Fecho os olhos para saborear melhor este beijo-chocolate e devolvo-te o sorriso quente que esboças para mim. As tuas mãos nas minhas, numa união eterna à volta desta chávena. O teu rosto encostado ao meu. Os teus lábios na minha pele... Um arrepio percorre-me as costas, abre-me os olhos, desvanece a tua imagem e torna nítida a tua presença. Reparo no chocolate ainda em danças circulares. Quentes. As danças. As suas. As nossas. Movidas pelo braço-colher. Movidas pelo braço-desejo. Num abraço. Neste abraço.
(SV)



(Não sei o que vou fazer)
São brancos estes desertos. Brilhantes.
In      finitos
Percorrem-nos estes olhos castanhos, cansados. Afundo-me neste sofá, baixo, velho. Deixo que me acolham os seus braços. É feito de lamentos o monólogo deste saxofone, espreitando timidamente pela coluna do velho rádio. De novo o deserto. Nu. Ao longe, o fumo de uma qualquer casa. Imagino sorrisos, conversas à mesa, roupas quentes adormecidas sobre velhos e sábios cadeirões.
(Sei o que quero fazer.)
Está frio lá fora. Tanto frio. Deixo que um pequeno sopro de Mim-Alma embacie a janela deste quarto. Desenho letras. Podiam ser de um nome. De um país perdido e chorado em letras de canções. Ou por poetas. De guerreiros mortos em batalhas longínquas, antes de gritarem o nome da mulher amada que suspira na praia, ansiando pelo seu regresso.
(Não vás, tenho medo… medo. Fica!)
Ou de um pequeno rasgo, este, por onde espreito a irrequieta neve que cai lá fora. Regresso à minha pequena cama, ainda por fazer. O longo braço do abeto é agora céu deste quarto. Toco a velha caneca que se encontra no chão. Navegam os meus dedos ao longo das suas formas. Dançam, escondem-se. Uma viagem quente. Como o sabor sedoso do que lá está. Recordo. Os passeios feitos durante a noite, os mercados percorridos, o chocolate bebido a meio da madrugada. De novo por cá? Perguntavam-nos. Como é que aguentam? Jovens, estes jovens. Estou muito velho, já para essas coisas. Ríamos. No fundo, sabíamos que o Tempo não nos existia. Porque era Tempo-Sabor. A Vida. Levanto-me, de novo. Queixa-se o livro que piso sem querer, de olhar melancólico. A caneca. Vou aquecendo as mãos, assim, beijando o quente sussurro que lá se esconde.
(Sei o que quero fazer.)
A janela. Lá fora, branco, o deserto. Brilhante. In        finito. Correm para ele as formas fumegantes. Deixo-me ir com elas, por momentos.

(Não sei o que vou fazer. Sei o que quero fazer. Sabes…?)

(PM)

Sem comentários: