segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

António Ramos Rosa e Edvard Munch

O Funcionário Cansado



  

   A noite trocou-me os sonhos e as mãos
   dispersou-me os amigos
   tenho o coração confundido e a rua é estreita
   estreita em cada passo
   e as casas engolem-nos
   sumimo-nos
   estou num quarto só num quarto só
   com os sonhos trocados
   com toda a vida às avessas a arder num quarto só  

   Sou um funcionário apagado
   um funcionário triste
   a minha alma não acompanha a minha mão
   Débito e Crédito Débito e Crédito
   a minha alma não dança com os números
   tento escondê-la envergonhado
   o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
   e debitou-me na minha conta de empregado
   Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
   Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
   Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

   Soletro velhas palavras generosas
   Flor rapariga amigo menino
   irmão beijo namorada
   mãe estrela música
   São as palavras cruzadas do meu sonho
   palavras soterradas na prisão da minha vida
   isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
   num quarto só  



in "Viagem Através duma Nebulosa", 1960


Edvard MUNCH, "Night in Saint-Cloud", 1890

1 comentário:

ivo disse...

Lindo, os meus parabéns.
Bonito quadro, bom gosto. Muito bom o poema, adorei a passagem: "estou num quarto só num quarto só". Parabéns.

Ivo Dias