quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Uma Imagem, Dois Textos...


Nicolas de STÄEL, "Seaside Railway Line in the Setting Sun"


A viagem

Fazia calor. O sol começava a descer, mas a temperatura mantinha-se quente e abafada. Não sabia exatamente há quanto tempo caminhava. Apenas sentia as pernas cansadas, o corpo a pedir descanso e água, muita água. Muita, muita água! Ali estava ela, à sua frente, à distância de uma corrida não muito longa. Não se lembrava de ter visto tanta água junta! No lugar onde habitava, havia pequenas fontes que corriam sempre e onde sabia que podia saciar a sede. Além disso, também havia pequenos regatos, mas esses, por vezes, deixavam de ter água no verão... E nem no inverno se assemelhavam ao que ele estava a ver naquele momento! Tanta, tanta água, brilhante, azul, tão azul! A água dos regatos da sua aldeia era transparente, límpida. Aquela não, era azul... Às vezes parecia-lhe verde... Mas não, era azul...
Reuniu as poucas forças que lhe restavam e dirigiu-se àquela massa da cor do céu. Quer dizer, também não era da cor do céu, porque naquele momento, o céu era uma mancha vermelha pincelada aqui e ali de tons amarelo-fogo... Gostava de ver o céu assim, mas metia-lhe algum medo, porque o céu ou é azul ou é cinzento.
Avançou, com pressa, em direção à água. De repente, um susto! O chão deixara de ser duro e passara a ser mole, o seu pequeno corpo a enterrar-se... Deu um salto para trás e ficou a olhar com atenção para aquele chão amarelo, feito de grãos muito finos e soltos! Ele já vira areia, mas não daquela. Resolveu experimentar novamente, com cautela, tentando que o peso do corpo se tornasse mais leve. De certa forma, até era agradável, era uma areia macia, fazia cócegas. Por fim, lá chegou à beira da água, onde a areia era mais dura, mais consistente. Tinha um cheiro diferente, aquela água. Aproximou-se para a cheirar e logo ficou todo molhado! O que fora aquilo? Tentou limpar a água dos olhos e foi quando sentiu a língua salgada. Que sabor tão estranho tinha aquela água! Intrigado, voltou a aproximar-se e daquela vez teve a certeza! A água tinha mãos, mãos brincalhonas ou atrevidas, não sabia bem, mãos molhadas que o molhavam também. Mas até nem era mau, ele tinha tanto calor, estava tão cansado, o ar era quente... A única coisa que o deixava desconsolado era o sabor da água, que era intragável! Tentou apanhar as mãos da água. Lá vinham elas novamente. Fugiam sempre. Desfaziam-se. Não sabia bem explicar. Num momento estavam lá e no outro já não estavam!
Arrebitou as orelhas. O que estava ele a ouvir? A água ali também tinha voz? E ria-se dele? Ficou estático durante algum tempo. Depois olhou à sua volta. Uma menina de rosto sereno, mas divertido, olhava para ele enquanto ria.
- Que tonto! Que fazes tu? Brincas com as ondas? Assim ficas todo molhado! Se calhar queres refrescar-te...
Tonto? A quem chamava ela tonto? No início ainda tinha simpatizado com ela, mas naquele momento o que lhe apetecia fazer era arreganhar os dentes...
- Oh! Calma! Não te quero fazer mal. O que fazes tu aqui sozinho?
Hum... Não me quer fazer mal? Mas ela ainda está à espera que eu acredite nisso? Acabei de ser abandonado e ainda quer que acredite nela?
 Olhou para a janela, para descansar os olhos do papel. O comboio avançava, veloz. Deixara já para trás as montanhas e os vales e aventurava-se agora pelas margens do mar azul. Estava um fim de tarde magnífico, o sol sorria com preguiça, sem vontade de desaparecer, e ia brincando com as cores. Ele era amarelo? Quem disse que o amarelo combina com azul? Vermelho e amarelo, que combinação perfeita! Às vezes entusiasmava-se um pouco mais e colocava uma gravata laranja ou pintava o seu cabelo com uns tons alaranjados. Ele até nem desgostava. E então, bem vestido, esperava a lua, que descia devagar as escadas do seu castelo, de branco vestida, sempre... Era um encontro fantástico, ela sentia sempre tanta nostalgia. Era tão mágico quando o sol e a lua davam as mãos...
Desviou o olhar para o corpo deitado aos seus pés. O seu companheiro de há muitos anos mexeu-se, abriu os olhos, parecia que tinha sentido a magia... A mesma magia que os unira quando, há muito tempo, ela o encontrara à beira mar, molhado, cansado, perdido. Afagou o seu pelo castanho e respirou fundo. Fazia a viagem da sua vida. Emigrava. Partia para longe de tudo e de todos os que lhe eram queridos, de tudo o que lhe era conhecido. Não sabia o que lhe guardava o futuro. Esperava que fosse mais generoso do que até então tinha sido. Talvez estivesse a dramatizar. Ou talvez não. Tinha sido feliz. Às vezes. Mas não tinha ainda conseguido encontrar o rumo que sonhara para si.
Um dia em que fora a mais uma entrevista, passou perto de uma estação de comboios. Um apito estridente ecoou no ar e ela estacou. E foi então que no interior começou a nascer a ideia da viagem. A vida é feita de viagens. Esta seria mais uma. Quem sabe uma viagem decisiva? Ou quem sabe uma viagem com retorno... Não sabia. Mas a decisão estava tomada. Iria ela mais o seu inseparável amigo Fiel. Quando o encontrara não sabia que nome havia de lhe dar. Então, como ela lhe prometera ser fiel para sempre e nunca o abandonar, achou que esse seria um bom nome para ele. Fiel. E parecia-lhe que ele aprovara o nome, pois quando o pronunciou em voz alta, este ladrou muito e aninhou-se para que ela lhe pudesse dar a mão... Não podia, por isso, deixá-lo agora sozinho. Iriam os dois naquela viagem, de mãos dadas, à descoberta da Vida...

SV

O relógio. O grande relógio. Olho os pesados e negros ponteiros que, incansavelmente, cumprem o seu destino. Tempo-Sangue. O seu caminho é traçado pelos milésimos de segundo que ditam vidas. A minha, que o observa agora. A de todos que me rodeiam. Atropela-me uma senhora vestida de vidro frágil, de lábios muito vermelhos e de luvas de pele até aos cotovelos. O homem que conduz as suas inúmeras malas vai gritando atenção atenção, como se dele dependesse a vida-cartão que agora transporta. Vê-lo-ei, daqui a pouco, de regresso, pesaroso, a olhar as ínfimas moedas que traz na mão, vociferando palavras que adivinho de revolta e sofrimento. Em casa há quem morra, em casa há quem morra, a maldita, a maldita. A cadelinha sorri, ironicamente, para o vagabundo sentado, imundo, de cabelo disfarçadamente muito bem penteado, que procura moedas distraídas na máquina cheia de chocolates, águas e sandes de sabores artificiais, tão duvidosos. Clanc… clanc… diz o relógio. O grande relógio. Procuro a enorme máquina que me levará, como tantas vezes. Sei como me deixarei embalar, enterrado no cómodo e estreito banco, de braços longos. Sono-Infância. Espreitarei o esconde-esconde das casas e das pessoas ao olhar através da janela. E naquela curva (Vêem?... Vêem?... ) estará, decerto, o pequeno miúdo de olhar curioso e queixo encostado aos joelhos, a fazer-me adeus. (Olááá, miúdo… adeee…uus…!). Um maquinista, Viajante-Mundo. Caminho. Já fumega a monstruosa máquina, negra, de olhar felino, veias prateadas. Eis a minha carruagem. Inspiro fortemente. Sustenho a respiração enquanto subo os três degraus de ferro gasto. Mergulho no cheiro a metal e pele, que continua a ser-me pouco familiar. Sento-me. Observo o relógio. Oiço as malas que respiram de alívio e que rapidamente adormecem assim que se deitam nos seus beliches. Os jornais que se folheiam. Os sacos de plástico que se incomodam por terem que partilhar, já, tão cedo?, os seus pertences com as crianças que já lamentam uma fome que verdadeiramente não sentem. O relógio. O grande relógio. Sabe-me a laranja o céu que vejo por entre as pequenas janelas de madeira antiga.
E entras. Sentas-te à minha frente. Sorrio. Sorris. Olhamos a janela. Quem sabe.
E partimos.
PM



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