domingo, 18 de dezembro de 2011

Uma Imagem, Dois Textos...


Graham McKEAN, "Girl with Lager"


Como ele era giro...
Um sorriso incontrolável bailava-lhe nos lábios, os seus grandes olhos azuis brilhantes de felicidade reviam cada pormenor do rosto desejado.
Fora ontem que o conhecera, ali, naquela mesa daquele bar à beira-mar. Ela tinha combinado com uma amiga encontrar-se ali. Aguardara tanto tempo por ela, que, quando dera por si, já tinha bebido mais do que desejava. Não era a primeira vez que a amiga chegava bastante atrasada aos seus encontros, mas era a primeira vez que ela não aparecia ao fim de duas horas. Começava a sentir-se incomodada por estar ali sozinha. O melhor seria telefonar-lhe a dizer que não viesse, porque ela se ia embora.
Quando agarrou no telemóvel, um homem alto, de cabelos castanhos, curtos, lábios carnudos, olhos cor de amêndoa, de ar bem-disposto, aproximou-se.
- Não me diga que lhe deram uma tampa? A uma rapariga tão bela... Posso tratá-la por tu?
Ela sabia que era conversa fiada, mas por alguma razão não conseguiu resistir ao seu encanto. Conversaram durante muito tempo, tocando os assuntos mais variados. Era arquiteto. E sonhava com a sua casa, num alto, vivenda grande, espaçosa, toda em vidro.
- Estou a tentar comprar um terreno, mas ainda não consegui fechar o negócio. Está a ver este bar? Fui eu que o concebi.
Ela espantou-se. Olhou pela primeira vez à sua volta, apreciando o espaço onde estava. Era amplo, a sala como que dividida por dois degraus. O balcão ao fundo, com cadeiras modernas. Descendo as escadas, as mesas, baixas, e os sofás encostados às paredes, que também sustentavam uns quadros abstratos. Tudo em tons castanhos e laranjas e bejes. Do lado do bar, as paredes eram de vidro e deixavam ver o mar. Um ambiente acolhedor, quase familiar. Olhou-o nos olhos. E admirou a sua capacidade criativa. E comunicativa. Era sem dúvida um comunicador nato, que encantava com as palavras, o tom da voz, grave, e os gestos largos e precisos.
- Catarina! Cá estás estás tu! Desculpa o atraso! Nem vais acreditar no que me aconteceu!
A sua amiga chegara! Logo agora!
- Bem, já vi que a tua companhia chegou. Deixo-as pôr a conversa em dia. Foi um prazer conhecê-la, Catarina...
E levantou-se. A forma impessoal com que ele se despedira dela causara-lhe algum desconforto. Catarina viu-o desaparecer atrás de duas raparigas que riam alto, os copos ainda cheios, as roupas reduzidas.
- Fizeste-te acompanhar bem durante a minha ausência! – riu-se a amiga.
Catarina lançou-lhe um olhar fulminante. Nem sequer tivera tido oportunidade de lhe pedir o número de telemóvel! Mandou vir mais uma cerveja e ali ficou por mais algum tempo a ouvir a amiga falar da sua aventura e das dos outros enquanto ela o ia procurando com o olhar. Parecia que se tinha evaporado! Nunca mais lhe conseguiu pôr a vista em cima!
Por isso, ali estava ela, um dia depois, na mesma mesa, mais ou menos à mesma hora, à espera de que o homem que tanto a encantara na noite anterior aparecesse...

(SV)



Ai cabelos, ai cabelos da cor do fogo
Se quereis pente e tirar o piolho!
                           Ai filha, qu’és tão boa!

Ai cabelos, ai cabelos de lava escorrida
Se quereis uma cortagem de curta medida!
                                      Ai filha, qu’és tão boa! 

Se quereis pente e tirar o piolho!
Cuidai que não lho entre p'ro olho.
                                      Ai filha, qu’és tão boa! 

Se quereis uma cortagem de diminuta medida!
Correi, correi, é hora da partida.
Ai filha, qu’és tão boa! 

Cuidai que o mergulheis em mel de trigo.
Nos lábios carnudos sentirá p’rigo!
Ai filha, qu’és tão boa! 

Correi, correi, é hora da partida.
Com tanto calor estou quase despida.
Ai filha, qu’és tão boa!

(PM)

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