domingo, 18 de dezembro de 2011

José Luís Peixoto e António Gômide

Chamas a crepitarem na lareira







"LEVANTAVA-ME CEDO NO DIA DE NATAL, acordava as minhas irmãs e, no cimo das escadas, perguntávamos em coro: “já podemos ir?” Esse era o momento em que a minha mãe acordava. Ouvíamos a pressa dos seus passos e ouvíamo-la dizer: “Está.” E, tentando decifrar o som de embrulhos entre os sons daquela hora da manhã, ficávamos sentados num degrau até ao momento em que voltáva­mos a perguntar em coro “Já podemos ir?”, e perguntávamos outra vez, outra, até ao momento em que ouvíamos: “já podem vir.” E descíamos as escadas num alarido de pijamas, eu era o primeiro e, quando entrávamos na sala, sob as luzes da árvore, sob o calor das chamas a crepitarem na lareira, sob o olhar e o sorriso da mi­nha mãe, estavam as prendas que abríamos devagar, uma a uma, para aproveitarmos toda aquela felicidade durante muito tempo. […]"

(Excerto)



in, ABRAÇO, Quetzal


 Antonio GOMIDE, "Natividade", 1962

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