segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Uma Imagem, Dois Textos...


Edward Hopper, "Summer Evening"


- Leva-me, peço-te! Leva-me daqui, deste vazio que me preenche, que me escurece! – dizia ele.
- É tão estranho tudo! – dizia ela. – Há momentos em que as searas deixam de namorar o mar. Partes nesse teu navio feito de descobertas só tuas, de tesouros que abres sem brilho. Tornas-te espuma, tantas vezes, como quando o vento se irrita contigo.
- Vês o bolso que tens nesse casaco, o mais pequeno? – sussurrou ele.
- Sim, vejo. Sinto-o. O que tem?
- É tão grande para mim. Conseguia entrar aí e ficar, fechado, em silêncio. Fecha os olhos. Vou aí. Vês? Fecha os olhos. Ouve como te fala a noite. Ouve. Deixa-te levar pelo brilho das estrelas. São sorrisos que caem sobre ti e te transformam em menina que agora é mulher. Fecha os olhos. Escuta...
Ficas a olhar para mim. Há uma estranheza no teu olhar. Procuras-me. Procuras-me. Sinto, de novo, o choro dos cais que me esperam. E os meus pés tornam-se, de súbito, âncoras que me arrastam para as profundezas de mim. E olho esta linha que quero tecida em redes-Outros, de pequenos saltos de criança à procura de uma simples bola, tricolor. Como o teu coração, sabes? Como o teu coração.
(PM)

Quero tanto compreender. Compreender-te. Compreender as razões que te movem. Dizes que vais partir. Para onde partes tu? Por que partes tu?
- És um anjo lindo... – dizes, as tuas mãos nas minhas faces, os teus olhos à procura dos meus. Sei que se mexer um músculo me vou transformar num rio – mas não naquele onde navegarás. São pouco profundas as minhas águas, pouco fortes os meus ventos. Precisas de outro céu, de outras margens. Oiço-te, mas há muito que deixei de te ver. Sinto os teus dedos percorrerem as linhas do meu rosto, procurarem as minhas mãos. Mas já iniciei a minha queda, estou longe já desse abraço que me dás...

(SV)

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