domingo, 4 de setembro de 2011

Alice Vieira e Charlie O'Sullivan

Devagar no Centro do Fogo – 5




é tão fácil amar lugares
que não existem

recordar praças     e pontes     e travessas
onde nunca morremos por ninguém

quartos na penumbra de estores corridos
sobre a sonolência dos gatos em Agosto
onde nunca chegámos atrasados

o tampo de mármore de mesas de café
onde as nossas mãos não se esconderam
por alguém ter entrado antes de nós

é tão fácil lembrar nomes     e rostos     e destinos
e colocá-los em nossos ombros     e festejar com eles
as luminosas horas em que a vida
nos rodeava a cintura como um amante possessivo
e nós repetíamos o nome das cidades onde nada tinha acontecido 

é tão fácil assim
dizer adeus
sabendo que deus nem sequer assiste
à despedida

in Dois Corpos Tombando na Água

Charlie O'SULLIVAN, "Forgotten Faces In Far-Off Places"

1 comentário:

L.S.A. disse...

É fácil esquecer tudo que não tenha tocada o nosso corpo... difícil esquecer as mãos que nos tenham afagado!