terça-feira, 5 de julho de 2011

José Saramago e Júlio Zartos

Na ilha por vezes habitada






Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.



Júlio ZARTOS, "Ilha no Céu"

1 comentário:

Julio Zartos disse...

Sinto-me muito honrado por descobrir um trabalho meu, junto a um texto do grande gênio da literatura portuguesa, quiçá de toda a humanidade, José Saramago!

Quero agradecer pelo privilégio e pela gentileza em publicar o crédito da imagem.

Abraços,