domingo, 6 de junho de 2010

João Aguiar e Edvard Munch

Escritor português (1943 – 2010)



“Mas os passos em breve cessam quando o último homem passa o portal e o respirar da multidão não é mais que um vago rumor longínquo. Junto do túmulo, o silêncio é absoluto.
O silêncio do princípio e do fim do mundo.
Pedro dá um único passo. As suas mãos estendem-se, tocam a pedra, acariciam-na.
Enfim. Vingada, desagravada, coroada.
Minha mulher e Rainha.
Porém as palavras, mesmo ditas só dentro de si, são perigosas.
Porque abrem caminho às emoções e já não é tempo de emoções, não é tempo de chorar. O seu maior amor está aqui, encerrado em pompa e glória, protegido pelo espaço sagrado, aguardando que chegue o tempo de reencontro, quando os mortos se levantarem na ressurreição da carne.
O seu outro amor está lá fora e também o espera.
Pedro retarda as mãos sobre a pêra numa derradeira carícia. Depois dá meia-volta e caminha, de corpo erecto, ao longo da nave, em direcção ao portal que desenha uma ogiva inundada pela luz da manhã.
É para essa luz que caminha e quando ela finalmente se apodera dele e o absorve estala no ar um grito feito de mil gritos.
O povo de Alcobaça e de léguas e léguas em redor vê-o enfim e o seu grito feito de mil gritos sobe para o céu.
Deus vos guarde, nosso pai. El-Rei é pai, El-Rei é pai.”


in Inês de Portugal



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