domingo, 14 de março de 2010

José Gomes Ferreira e Rogério Ribeiro

(Na morte de Manuela Porto.)




Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.
Quando nos sentíssemos cansados, fartos do mesmo sol a fingir de novo todas as manhãs, convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite para o ritual do Grande Desfazer:
“Fulano de tal comunica ao mundo que vai transformar-se em nuvem, hoje, às 9 horas. Traje de passeio.” E então, solenemente, com passos de reter tempo, fatos escuros, olhos de lua de cerimónia, viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes. Ternura de calafrio. “Adeus! Adeus!”
E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento, numa lassidão de arrancar raízes... (primeiro, os olhos... em seguida, os lábios... depois os cabelos...) a carne, em vez de apodrecer, começaria a transfigurar-se em fumo... tão leve... tão subtil... tão pólen... como aquela nuvem além (vêem?) – nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis...


                                          Rogério RIBEIRO, "Sem Título"

2 comentários:

Grupo de Arte Ictus disse...

Coloquei o seu blog em "Minha Lista de Blogs". Veja em ictusgrupodearte.blospot.com e
tb no meu blog - ilsefenner.blogspot.com
Ilse

um minuto com... disse...

Olá, Grupo de Arte Ictus :)

Agradecemos a visita e a adesão ao nosso blog, assim como o terem colocado na vossa lista. Continuaremos as visitas.
Ate já

Um Minuto com...