quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Maria do Rosário Pedreira e Paul Cezanne



Devagar


Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,


se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas –
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós


o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.







CÉZANNE, Paul, "Natureza Morta e Relógio Preto", 1871

terça-feira, 5 de setembro de 2017

José Luís Peixoto


O Primeiro Beijo


Durante todas as noites desse verão, as estrelas foram líquidas no céu. Quando eu as olhava, eram pontos líquidos de brilho no céu. Na primeira vez, encontrámo-nos durante o dia: eu sorri-lhe, ela sorriu-me. Dissemos duas ou três palavras e contivemo-nos dentro dos nossos corpos. Os olhos dela, por um instante, foram um abismo onde fiquei envolto por leveza luminosa, onde caía como se flutuasse: cair através do céu dentro de um sonho. 

Naquela noite, fiquei a esperá-la, encostado ao muro, alguns metros depois da entrada da pensão. As pessoas que passavam eram alegres. Eu pensava em qualquer coisa que me fazia sentir maior por dentro, como a noite. As folhas de hera que cobriam o cimo do muro, e que se suspendiam sobre o passeio, eram uma única forma nocturna, feita apenas de sombras. Primeiro, senti as folhas de hera a serem remexidas; depois, vi os braços dela a agarrarem-se ao muro; depois, o rosto dela parado de encontro ao céu claro da noite. E faltou uma batida ao coração. 

O mundo parou. Sombras pousavam-lhe, transparentes, na pele do rosto. O ar fresco, arrefecido, moldava-lhe a pele do rosto. E o mundo continuou. Ajudei-a a descer. Corremos pelo passeio de mãos dadas. A minha mão a envolver a mão fina dela: a força dos seus dedos dentro dos meus. Na noite,os nossos corpos a correrem lado a lado. Quando parámos: as nossas respirações, os nossos rostos admirados um com o outro: olhámo-nos como se nos estivéssemos a ver para sempre. Quando os meus lábios se aproximaram devagar dos lábios dela e nos beijámos, havia reflexos de brilho, como pó lançado ao ar, a caírem pela noite que nos cobria. 


in Cemitério de Pianos 




Autor Desconhecido, "Lover women and man kiss



sábado, 2 de setembro de 2017

Natália Correia e Kátia Almeida




Creio













Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes;

Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,

Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,

Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. amém.




terça-feira, 18 de julho de 2017

José Luís Peixoto e Edvard Munch

(A propósito do incêndio de Pedrogão Grande)



Por todos aqueles que se dirigiam à vida
15.07.16 



Por todos aqueles que se dirigiam à vida, que só esperavam vida e que, sem saber, caíram desamparados no abismo opaco da morte; por todos aqueles que acordavam de manhã, que se alimentavam de ilusão, invencíveis perante a sua teimosia inocente, e que, na dobra de um instante, desprotegidos da solidão, acordados a meio de um sonho, caíram desamparados no abismo opaco da morte; por todos aqueles olhares que refletiam a luz do dia, montras de segredos, rostos que lembraremos com um sorriso brando e que, sem motivo, caíram desamparados no abismo opaco da morte; estas palavras frágeis e inúteis, este tempo breve e insuficiente. Existiram como nós, foram gente como nós, sentiram como nós. Por todas as palavras que disseram, pela forma humana como as pronunciaram, pela memória incandescente da sua voz, pelo seu tempo de pessoas, estas palavras incapazes, este tempo incapaz e o caminho x ou y que escolhemos para segui-los. 



MUNCH, Edvard, "O Grito", 1893



sexta-feira, 7 de julho de 2017

David Attemborough (BBC One)



"What A Wonderful World

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Martha Medeiros e Cácá



Se é pra sofrer, que seja sozinho, onde seu rosto possa estampar desalento, inchaços, nariz vermelho, olhar perdido, boca crispada. Se é pra sofrer, que o corpo possa verter, vergar, amolecer. Se é pra sofrer, que possa ser descabelado, que possa ser de pés descalços, que possa ser em silêncio. ´

Que os demônios levem pro inferno aquele que bate à nossa porta bem no meio da nossa fossa, aquele que telefona bem no auge das nossas lágrimas, aquele que nos puxa para uma festa obrigatória. Malditos todos aqueles com quem não podemos compartilhar nossa dor, e nos obrigam a fingir que nada está se passando dentro da gente. 

Disfarçar um sofrimento é trabalho de Hércules. Um prêmio para todos aqueles que conseguem fazer com que os outros não percebam sua falta de ânimo nos momentos em que ânimo é tudo o que esperam de nós: nas ceias de Natal, jantares em família, reuniões de trabalho. Você não quer estar ali, quer estar em Marte, quer estar em qualquer lugar onde não seja obrigado a sorrir. 


Há sempre o momento de pedir ajuda, de se abrir, de tentar sair do buraco. Mas, antes, é imprescindível passar por uma certa reclusão. Fechar-se em si, reconhecer a dor e aprender com ela. Enfrentá-la sem atuações. Deixar ela escapar pelo nariz, pelos olhos, deixar ela vazar pelo corpo todo, sem pudores. Assim como protegemos nossa felicidade, temos também que proteger nossa infelicidade. Não há nada mais desgastante do que uma alegria forçada. Se você está infeliz, recolha-se, não suba ao palco. Disfarçar a dor é dor ainda maior.



CÁCÁ, "Desalento"


terça-feira, 13 de junho de 2017

Eugénio de Andrade e Paul Klee


Outono











O outono vem vindo, chegam melancolias, 

cavam fundo no corpo, 

instalam-se nas fendas; às vezes 

por aí ficam com a chuva 

apodrecendo; 

ou então deixam marcas; as putas, 

difíceis de apagar, de tão negras, 

duras. 


in  Outro Nome da Terra




KLEE, Paul, "O Mensageiro do Outono"


quinta-feira, 8 de junho de 2017

Clarice Lispector


Dá-me a tua mão










Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.




Imagem de Stock Royalty Free - Pongphan Ruenchai, "Pinturas das Mãos"

terça-feira, 6 de junho de 2017

José Saramago e Jackson Pollock



Na ilha por vezes habitada









Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.




POLLOCK, Jackson, "Number 23"




segunda-feira, 5 de junho de 2017

Gonçalo M. Tavares


O Amor






Se chovesse (sempre) trezentos e sessenta e cinco dias por ano,
e as nuvens no céu se repetissem na cor,
na forma, na velocidade, e na lentidão;
e se o sol permanecesse robusto e alto, constante
como o último andar de um edifício (bem construído),
de calor assim assim mas repetindo assim assim
de calor da véspera;
se o mau e o bom tempo fossem uma linha única,
paralela aos dias;
se o verão e o inverno
em vez de dois fossem um,
como uma pedra é um, e uma árvore é um,
se, enfim, quem amas permanecesse amado por ti,
hoje exactamente como ontem,
e daqui a trinta anos exactamente como hoje;
então não existiria o tempo,
e os relógios de pulso seriam pulseiras ruidosas,
mecânicas de mais para estarem tão próximas da mão
capaz de tocar com leveza.
E se não há tempo
não podemos trair.



(Autor e título desconhecidos - retirado a partir do Google)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Manuel Alegre e Henri Matisse



Gostava de morar na tua pele







Gostava de morar na tua pele
desintegrar-me em ti e reintegrar-me
não este exílio escrito no papel
por não poder ser carne em tua carne.

Gostava de fazer o que tu queres
ser alma em tua alma em um só corpo
não o perto e o distante entre dois seres
não este haver sempre um e sempre o outro.

Um corpo noutro corpo e ao fim nenhum
tu és eu e eu sou tu e ambos ninguém
seremos sempre dois sendo só um.

Por isso esta ferida que faz bem
este prazer que dói como outro algum
e este estar-se tão dentro e sempre aquém.



in Obra Poética, Publicações D. Quixote,1936.




MATISSE, Henry, "Nu Azul II


terça-feira, 30 de maio de 2017

Valter Hugo Mãe e Marc Chagall



vou buscar-te ao fim da tarde,
porque a noite só escurece contigo ao
meu lado, porque a noite aprende por ti
o caminho aberto das estrelas

vou buscar-te ao fim da tarde,
e verás como preparei a casa, como
escolhi a música, como, enfim, espalhei
os objectos mais impressionados contigo,
os que ganharam vida por se interporem
na espessura estreita que vai do meu
ao teu coração

e não mais te devolvo, correndo todos os
riscos de não amanhecer nunca
numa loucura propositada por ti

não mais te devolvo,
ocuparás o mundo debaixo e sobre mim,
e não haverá mais mundo sem que seja assim




CHAGALL, Marc, "Il Circo Rosso", 1956-1960

terça-feira, 23 de maio de 2017

Marwan (e desconhecido)


Anúncio por palavras (II)

















Verso solteiro procura leitora de poemas

para iniciar relação estável

e fazer amor nas páginas do vento.

Interessadas apresentem-se sem roupa e animadas

na página mais próxima

antes que isto acabe publicado

num triste livro de poemas.


PS: chegaste tarde.




in “Todos os meus futuros são contigo”, Marcador




"Costellazione" (?)

domingo, 7 de maio de 2017

José Luís Peixoto e Gustav Klimt

Palavras para a Minha Mãe





mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses
as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz.
sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente.

pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste
tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te
desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente.

às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo,
a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia
mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz.

lê isto: mãe, amo-te.

eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não
escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que
não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não
as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes.
in "A Casa, a Escuridão"



KLIMT, Gustav, "Mãe e Filho"

quinta-feira, 27 de abril de 2017

David Mourão-Ferreira e Marc Chagall

Paraíso










Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.



in "Infinito Pessoal" (1959-1962)






CHAGALL, Marc, "Paraíso, com Adão e Eva",  1961



domingo, 23 de abril de 2017

Cecília Meireles e Anna Ancher


Poema para a Vó Teca










Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores me entrelaçavam.

Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas…
O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! ─ aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.






ANCHER, Anna, "Mulher de Pescado Costurando", 1890

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Cecília Meireles e Joan Miró



Desenho











Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.






MIRÓ, Joan,"Azul III"


terça-feira, 18 de abril de 2017

José Saramago e Leonid Afremov

Intimidade




No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
in "Os Poemas Possíveis" 


AFREMOV, Leonid, "Classical Tango"

domingo, 16 de abril de 2017

Nuno Júdice e Carrie Vielle

Volta até mim no silêncio da noite









Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam. 




VIELLE, Carrie, Título Desconhecido, retirado de Google

terça-feira, 11 de abril de 2017

Nuno Judice e Marc Chagall

Um Amor








Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. 

Depois, na rua, 
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação. 



in "A Partilha dos Mitos"



CHAGALL, Marc, "Promenade

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Manuel António Pina e Rafael Alberti


A Poesia Vai Acabar








A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»     E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —



 in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. 

Calma é Apenas um Pouco Tarde"


ALBERTI, Rafael, "La Lamentable"

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Joaquim Manuel Magalhães e John Everett Milais








Era de inverno, em Vila Real. A neve
cobria as ruas que levavam ao liceu.
Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal
no tampo de vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesas indiferentes.
E querias olhar para mais dentro de mim.

Os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do céu.
Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
Que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.

Tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. Tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
Mas sempre que tombar a neve em Vila Real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás de lembrar.


in Segredos, Sebes, Aluviões, 1985




MILAIS, John Everett, "Paisagem de Inverno"

(Pintor e ilustrador inglês (1829-1926))

domingo, 26 de março de 2017

Manuel Alegre


Como Ulisses te busco e desespero











Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero.

Mas como Ulisses passo mil perigos
escuto a sereia e a custo me sustenho
e embora tenha tudo nada tenho
que em te não tendo tudo são castigos.

Só não me canta Homero. Mas como U-
lisses vou com meu canto como um barco
ouvindo o teu chamar -- Pátria Sereia
Penélope que não te rendes -- tu

que esperas a tecer um tempo ideia
que de novo o teu povo empunhe o arco

como Ulisses por ti nesta Odisseia. 




(Autor Desconhecido)

quarta-feira, 15 de março de 2017

David Mourão-Ferreira e José de Almada Negreiros


Maria Lisboa








É varina, usa chinela,
tem movimento de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata.

Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile coo mar.

É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido Lisboa.






NEGREIROS, José de Almada, "Varina"

domingo, 15 de janeiro de 2017

Francisco José Barata e Pedro Olayo Filho


O Casario











este fado que
ecoa
são lágrimas
deste lugar
e uma gaivota
que voa
sobre o casario
de lisboa
leva a cidade
pró mar





(Lisboa, 1998)




FILHO, Pedro Olayo, "Porto Marítimo - Poço do Bispo, Lisboa" (Óleo sobre tela - assinado)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Álvaro de Campos e Marta Moro



Lisboa com suas casas





Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos.
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.



in Poesias de Álvaro de Campos, 1934






MORO, Marta, "Chiado"

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

António Nobre e Minoru Nagashima


Á Lisboa das Naus Cheia de Gloria






I

Lisboa á beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa das meigas Procissões!
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
Ó Lisboa dos lyricos pregões...
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos provaveis de Camões!
Ó Lisboa de marmore, Lisboa!
Quem nunca te viu, não viu coisa boa...


II

És tu a mesma de que falla a Historia?
Eu quero ver-te, aonde é que estás, aonde?
Não sei quem és, perdi-te de memoria,
Dize-me, aonde é que o teu perfil se esconde?
Ó Lisboa das Naus, cheia de gloria,
Ó Lisboa das Chronicas, responde!
E carregadas vinham almadias
Com noz, pimenta e mais especiarias...


III

Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
A Lisboa dos Poetas Cavalleiros!
Galeras doidas por soltar a amarra,
Cidade de morenos marinheiros,
Com navios entrando e saindo a barra
De prôa para paizes extrangeiros!
Uns p'ra França, acenando Adeus! Adeus!
Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus!


IV

Ó Lisboa das ruas mysteriozas!
Da _Triste Feia_, de _João de Deus_,
_Becco da India_, _Rua das Fermosas_,
_Becco do Falla-Só_ (os versos meus...)
E outra rua que eu sei de duas _Rozas_,
_Becco do Imaginario_, dos _Judeus_,
_Travessa_ (julgo eu) _das Izabeis_,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.


V

Meiga Lisboa, mystica cidade!
(Ao longe o sonho desse mar sem fim.)
Que pena faz morrer na mocidade!
Teus sinos, breve, dobrarão por mim.
Mandae meu corpo em grande velocidade,
Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim?
Quando eu morrer (porque isto pouco dura)
Meus Irmãos, dae-me alli a sepultura!


VI

Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo?
Lembra leite a escorrer de tetas nuas!
Luar assim tão meigo, tão profundo,
Como a cair d'um céo cheio de luas!
Não deixo de o beber nem um segundo,
Mal o vejo apontar por essas ruas...
Pregoeiro gentil lá grita a espaços:
«Vae alta a lua!» de Soares de Passos.


VII

Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam,
Cintra das solidões! beijo da Terra!
Cintra dos noivos, que ao luar desvairam,
Que vão fazer o seu ninho na serra;
Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron,
Meu nobre camarada de Inglaterra!
Cintra dos Moiros com os seus adarves,
E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves!


VIII

Romantica Lisboa de Garrett!
Ó Garrett adorado das mulheres,
Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete
Á tua linda caza dos _Prazeres_.
Mas qual seria a melhor hora, ás sete,
Garrett, para tu me receberes?
O teu porteiro disse-me, a sorrir,
Que tu passas os dias a dormir...


IX

Pois tenho pena, amigo, tenho pena;
Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco!
Que falta fazes á Lisboa amena!
Anda vêr Portugal! parece louco...
Que patria grande! como está pequena!
E tu dormindo sempre ahi no «choco».
Ah! como tu, dorme tambem a Arte...
Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte!


X

Ó Lisboa vermelha das toiradas!
Nadam no Ar amores e alegrias.
Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,
Cavalleiros, fazendo cortezias...
Que graça ingenua! farpas enfeitadas!
O Povo, ao Sol, cheirando ás marezias!
Vêde a alegria que lhe vae nas almas!
Vêde a branca Rainha, dando palmas!


XI

Ó suaves mulheres do meu desejo,
Com mãos tão brancas feitas p'ra caricias!
Ondinas dos Galeões! Nymphas do Tejo!
Animaeszinhos cheios de delicias...
Vosso passado quão longiquo o vejo!
Vós sois Arabes, Celtas e Phenicias!
Lisboa das Varinas e Marquezas...
Que bonitas que são as Portuguezas!


XII

Senhoras! ainda sou menino e moço,
Mas amores não tenho nem carinhos!
Vida tão triste supportar não posso:
Vós que ides á novena, aos _Inglezinhos_.
Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso,
N'essa voz que tem beijos e é de arminhos.
Rezae por mim, vereis,--vossos peccados,
(Se acaso os tendes), vos serão perdoados...


XIII

Rezae, rezae, Senhoras por aquelle
Que no Mundo soffreu todas as dores!
Odios, traições, torturas,--que sabe elle!
Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores!
E que, hoje, aqui está, só osso e pelle,
A espera que o enterrem entre as flores...
Ouvi: estão os sinos a tocar:
Senhoras de Lisboa! ide rezar.


in Despedidas: 1895-1899, 1902



NAGASHIMA, Minoru, "Príncipe Real"