domingo, 26 de março de 2017

Manuel Alegre


Como Ulisses te busco e desespero











Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero.

Mas como Ulisses passo mil perigos
escuto a sereia e a custo me sustenho
e embora tenha tudo nada tenho
que em te não tendo tudo são castigos.

Só não me canta Homero. Mas como U-
lisses vou com meu canto como um barco
ouvindo o teu chamar -- Pátria Sereia
Penélope que não te rendes -- tu

que esperas a tecer um tempo ideia
que de novo o teu povo empunhe o arco

como Ulisses por ti nesta Odisseia. 




(Autor Desconhecido)

quarta-feira, 15 de março de 2017

David Mourão-Ferreira e José de Almada Negreiros


Maria Lisboa








É varina, usa chinela,
tem movimento de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata.

Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile coo mar.

É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido Lisboa.






NEGREIROS, José de Almada, "Varina"

domingo, 15 de janeiro de 2017

Francisco José Barata e Pedro Olayo Filho


O Casario











este fado que
ecoa
são lágrimas
deste lugar
e uma gaivota
que voa
sobre o casario
de lisboa
leva a cidade
pró mar





(Lisboa, 1998)




FILHO, Pedro Olayo, "Porto Marítimo - Poço do Bispo, Lisboa" (Óleo sobre tela - assinado)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Álvaro de Campos e Marta Moro



Lisboa com suas casas





Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos.
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.



in Poesias de Álvaro de Campos, 1934






MORO, Marta, "Chiado"

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

António Nobre e Minoru Nagashima


Á Lisboa das Naus Cheia de Gloria






I

Lisboa á beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa das meigas Procissões!
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
Ó Lisboa dos lyricos pregões...
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos provaveis de Camões!
Ó Lisboa de marmore, Lisboa!
Quem nunca te viu, não viu coisa boa...


II

És tu a mesma de que falla a Historia?
Eu quero ver-te, aonde é que estás, aonde?
Não sei quem és, perdi-te de memoria,
Dize-me, aonde é que o teu perfil se esconde?
Ó Lisboa das Naus, cheia de gloria,
Ó Lisboa das Chronicas, responde!
E carregadas vinham almadias
Com noz, pimenta e mais especiarias...


III

Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
A Lisboa dos Poetas Cavalleiros!
Galeras doidas por soltar a amarra,
Cidade de morenos marinheiros,
Com navios entrando e saindo a barra
De prôa para paizes extrangeiros!
Uns p'ra França, acenando Adeus! Adeus!
Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus!


IV

Ó Lisboa das ruas mysteriozas!
Da _Triste Feia_, de _João de Deus_,
_Becco da India_, _Rua das Fermosas_,
_Becco do Falla-Só_ (os versos meus...)
E outra rua que eu sei de duas _Rozas_,
_Becco do Imaginario_, dos _Judeus_,
_Travessa_ (julgo eu) _das Izabeis_,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.


V

Meiga Lisboa, mystica cidade!
(Ao longe o sonho desse mar sem fim.)
Que pena faz morrer na mocidade!
Teus sinos, breve, dobrarão por mim.
Mandae meu corpo em grande velocidade,
Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim?
Quando eu morrer (porque isto pouco dura)
Meus Irmãos, dae-me alli a sepultura!


VI

Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo?
Lembra leite a escorrer de tetas nuas!
Luar assim tão meigo, tão profundo,
Como a cair d'um céo cheio de luas!
Não deixo de o beber nem um segundo,
Mal o vejo apontar por essas ruas...
Pregoeiro gentil lá grita a espaços:
«Vae alta a lua!» de Soares de Passos.


VII

Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam,
Cintra das solidões! beijo da Terra!
Cintra dos noivos, que ao luar desvairam,
Que vão fazer o seu ninho na serra;
Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron,
Meu nobre camarada de Inglaterra!
Cintra dos Moiros com os seus adarves,
E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves!


VIII

Romantica Lisboa de Garrett!
Ó Garrett adorado das mulheres,
Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete
Á tua linda caza dos _Prazeres_.
Mas qual seria a melhor hora, ás sete,
Garrett, para tu me receberes?
O teu porteiro disse-me, a sorrir,
Que tu passas os dias a dormir...


IX

Pois tenho pena, amigo, tenho pena;
Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco!
Que falta fazes á Lisboa amena!
Anda vêr Portugal! parece louco...
Que patria grande! como está pequena!
E tu dormindo sempre ahi no «choco».
Ah! como tu, dorme tambem a Arte...
Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte!


X

Ó Lisboa vermelha das toiradas!
Nadam no Ar amores e alegrias.
Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,
Cavalleiros, fazendo cortezias...
Que graça ingenua! farpas enfeitadas!
O Povo, ao Sol, cheirando ás marezias!
Vêde a alegria que lhe vae nas almas!
Vêde a branca Rainha, dando palmas!


XI

Ó suaves mulheres do meu desejo,
Com mãos tão brancas feitas p'ra caricias!
Ondinas dos Galeões! Nymphas do Tejo!
Animaeszinhos cheios de delicias...
Vosso passado quão longiquo o vejo!
Vós sois Arabes, Celtas e Phenicias!
Lisboa das Varinas e Marquezas...
Que bonitas que são as Portuguezas!


XII

Senhoras! ainda sou menino e moço,
Mas amores não tenho nem carinhos!
Vida tão triste supportar não posso:
Vós que ides á novena, aos _Inglezinhos_.
Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso,
N'essa voz que tem beijos e é de arminhos.
Rezae por mim, vereis,--vossos peccados,
(Se acaso os tendes), vos serão perdoados...


XIII

Rezae, rezae, Senhoras por aquelle
Que no Mundo soffreu todas as dores!
Odios, traições, torturas,--que sabe elle!
Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores!
E que, hoje, aqui está, só osso e pelle,
A espera que o enterrem entre as flores...
Ouvi: estão os sinos a tocar:
Senhoras de Lisboa! ide rezar.


in Despedidas: 1895-1899, 1902



NAGASHIMA, Minoru, "Príncipe Real"

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sophia de Mello Breyner Andresen e J. Oliveira



Tejo











Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada


in Obra Poética, 2011


OLIVEIRA, J., "Lisboa vista do Tejo com cacilheiro"

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Adília Lopes



Lisboa






Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

Cidade lilás
semeada
de jacarandás
Cidade dourada

semeada
de igrejas

Cidade prateada
semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba.



 in Poemas Novos, 2006





Autor desconhecido (retirado da net), "Lisboa Naif"

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Eugénio de Andrade e Carlos Alexandre



Aos jacarandás de Lisboa 











São eles que anunciam o verão.

Não sei doutra glória, doutro

paraíso: à sua entrada os jacarandás

estão em flor, um de cada lado.

E um sorriso, tranquila morada,

à minha espera.

O espaço a toda a roda

multiplica os seus espelhos, abre

varandas para o mar.

É como nos sonhos mais pueris:

posso voar quase rente

às nuvens altas – irmão dos pássaros –,

perder-me no ar.




in Os Sulcos da Sede, 2001






ALEXANDRE, Carlos, "Lisboa, Av. da Liberdade"



terça-feira, 8 de novembro de 2016

Ana Hatherly e Thierry Baille

O Terceiro Corvo




Oh Lisboa
como eu gostava de ser
o terceiro corvo do teu emblema…
estar implícita na tua bandeira
negra e branca
como tinta e papel
como escrita e espaço!

Ser teu desenho
tua nova lenda
invenção deste século
que já não inventa
e se interroga:
donde vieram estes corvos?

Como tu, Vicente,
eu também não sou de cá
não sou daqui
não pertenço a esta terra
e talvez nem sequer a este mundo…

Porém estou aqui
nesta dolorosa praia lusitana
cheia de um tumulto inútil
que enegrece as tuas areias
e polui o ventre do rio
que os golfinhos há muito desertaram

E olhando as nuvens dedilhadas pelo vento
sentindo a terna dor do teu sentir sentido
peço-te, Lisboa:
surge de novo bela
reinventa
a santidade perdida do teu emblema


in Em Lisboa sobre o mar, Poesia 2001-2010




BAILLE, Thierry, "Cicerone"

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Manuel Alegre e anónimo

Balada de Lisboa




Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo


Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Nas manhãs da tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente


Esta é a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais.

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém



in Babilónia, 1983







Pintura de azulejo de autoria anónima, em Lisboa, Portugal, sem data.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Alexandre O'Neill e Raquel Martins



E de novo, Lisboa, te remancho, 






E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha. Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?
Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?




in De Ombro na Ombreira, 1969




MARTINS, Raquel, "Candeeiros de Lisboa"

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Eugénio de Andrade e autor desconhecido

Lisboa



Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga 
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus até ao rio. Eu sei. E tu, sabias?



in Até Amanhã, 1956


Autor Desconhecido, "Lisboa, Sorrisos"

domingo, 9 de outubro de 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen e Gonçalo da Costa França


Lisboa



Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver



in Obra Poética, 2011




FRANÇA, Gonçalo da Costa, "Lisboa Igreja de Santo António e Sé"

domingo, 2 de outubro de 2016

David Mourão-Ferreira e Jacinta Jerónimo

Pequena Ode A Um Carro Eléctrico 












Colectivo sarcófago ambulante, 
conduzes centos de almas, dia a dia 
(ó morte desleal de cada instante!), 
para a conquista pávida, incessante, 
do envenenado pão do dia-a-dia. 


Por isso te ergo a símbolo quase eterno, 
ó provisória barca do Inferno! 



in Tempestade de Verão





JERÓNIMO, Jacinta, “Monumentos e Elétricos de Lisboa

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Eugénio de Andrade e Brendan Higgins


Os olhos rasos de água

 

Cansado de ser homem o dia inteiro

chego à noite com os olhos rasos de água.

Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,

entrar dentro de ti como num bosque.

 

É a hora de fazer milagres:

posso ressuscitar os mortos e trazê-los

a este quarto branco e despovoado,

onde entro sempre pela primeira vez,

para falarmos das grandes searas de trigo

afogadas na luz do amanhecer.

 

Posso prometer uma viagem ao paraíso

a quem se estender ao pé de mim,

ou deixar uma lágrima nos meus olhos

ser a nostalgia das areias.

 

É a hora de adormecer na tua boca,

como um marinheiro num barco naufragado,

o vento na margem das espigas.
 

HIGGINS, Brendan, "Water Series", 2013

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ondjaki e Lily Greenwood


Para vivenciar nadas


                 para e com chiara, bea, valérie

 

 


borboleta é um ser irrequieto

para vestes usa pólen.

tem um cheiro colorido

e babas de amizade.

descola por ventos

e facilmente aterriza em sonhos.

borboleta tem correspondência direta

com a palavra alma.

para existir usa liberdades.

desconhece o som da tristeza

embora saiba afogá-la.

usa com afinidades

o palco da natureza.

nega maquilhagens isentas de materiais cósmicos. como digo:

pó-de-lua, lápis solar

castanho-raíz, cinzento-nuvem.

borboleta dispõe de intimidades

com arco íris

a ponto de cócegas mútuas.

para beijar amigos e vidas ela usa olhos.

borboleta é um ser

de misteriosos nadas.

 

In Há Prendisajens Com o Xão
 
 
 
 
 
GREENWOOD, Lily, "Red"
 

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Vasco Gato e Miza Pintor


neva, de facto

 

 

um.

 

entende que escuto o teu coração

quando no outono os sóis aguardam

pacientes atrás da planície funda

 

e até mesmo quando se concentram as sombras

em volta de um braço de espuma e mais não

querem as folhas que cantar a cerejeira

  ainda aí é o teu coração que escuto

 

 

 in “lugar, morada nossa”




Miza PINTOR, "O Abraço"

quinta-feira, 16 de julho de 2015

Pedro Chagas Freitas e Gustav Klimt


O Abraço
O abraço. O abraço que parece estar a acabar. O abraço raro, o abraço verdadeiro. Da mãe que recebe o filho, da mulher que recebe o marido, do amigo que recebe o amigo. O abraço que não se pensa, que não se imagina. O abraço que não é; o abraço que tem de ser. O abraço que serve para viver. O abraço que acontece – e que não se esquece. Um dia hei de passar todo o dia a ensinar o abraço. A visitar as escolas e a explicar que abraçar não é dois corpos unidos e apertados pelos braços. Abraçar é dois instantes que se fundem por dentro do que une dois corpos. Abraçar é um orgasmo de vida, um clímax de partilha – uma orgia de gente. Abraçar é fechar os olhos e abrir a alma, apertar os músculos e libertar o sonho. Abraçar é fazer de conta que se é herói – e sê-lo mesmo. Porque nada é mais heroico do que um abraço que se deixa ser. Porque nada é mais heroico do que ter a coragem de abraçar, em frente do mundo, em frente da dor, em frente do fim, em frente da derrota. Abraçar é a vitória do homem sobre o homem, da pessoa sobre a pessoa. Abraçar é celebrar a humanidade. Abraçar vale mais do que amar. Abraçar é o amor que se ultrapassa. O amor que se transmuta. O amor que se apaixona por se ser amor. Abraçar é mais do que o amor, mais do que a paixão, mais do que o tesão, a excitação ou a pulsão. Abraçar é para além do que abraça, para além do que é abraçado, para além do que sente ou que é sentido. Abraçar não se sente nem se sente muito. Abraçar é. E pode ser tudo aquilo que não é – mas que não deixa de ser. Pode ser o abraço que é “vem, ama-me”, pode ser o abraço que é “adoro-te, meu filho”, pode ser o abraço que é “obrigado por estares aí, meu amigo”. O abraço pode ser todos os abraços do mundo. E cada abraço é todos os abraços do mundo. E cada abraço é todos os mundos num abraço, em dois pares de braços que se tocam, que se fundem, que se encontram e que se elevam. Para lá do que sentem, para lá do que entendem. Um abraço verdadeiro é mentira, alucinação – e não é isso que o inibe de ser a mais verosímil das verdades, a mais palpável das realidades. Um dia, hei de passar todo o dia a ensinar o abraço. Nas escolas, nas estradas, nos becos de urina e de lágrimas. O abraço. A unir o menino traquina e o menino traquinado, a criança que humilha e o desgraçado humilhado. O abraço. A unir. A prostituta que se rende e o gestor que se vende. O empregado que resiste e o cabrão que insiste. Todos. Num abraço. O abraço resolveria todos os problemas do mundo. E no entanto não deixaria de não resolver problema algum. E é sempre assim, no mundo, na vida, no sonho, na dor. É sempre assim e nunca deixará de ser assim: é aquilo que nada resolve que tem de resolver tudo o que há para resolver. Não tem nada que saber apesar de ninguém o saber: é aquilo que não serve para nada que serve para tudo.

Pedro Chagas Freitas, in Eu Sou Deus
 
 
 
Gustav KLIMT, The Hug, 1862-1918
 

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Uma Imagem, Dois Textos...


(retirado do blog "Lapsos de Tempo")
 
 
 
          - Sabes as pequenas coisas?
As pequenas coisas são isto que tu vês: momentos de paz, de tranquilidade, de beleza que partilho contigo, mesmo que em silêncio…
 
E aquilo que tu não vês: ilusões desfeitas que, ainda que partilhadas, nunca mais se recuperam…
 
 
 
(SV)
 
 
 
 
 
 
Infância
de pernas bamboleantes feita.
O baloiço
                O sussurro metálico de elos cansados…
Queres voar?
Queres nadar?
                Mais alto.
                Força…
                Mais alto.
Quero beijar o céu,
transformar-me em
                              
                                               ssa
                                                               ro.
Barco invisível.
Sonhos reais.
São lágrimas as estrelas que me correm
Pela face.
                Mais alto.
                Força…
                Mais alto.
São urbanos, os hieróglifos que te vestem,
lento , o marulhar.
                Mergulha.
                               Me.
Carrossel colorido de cavalos sorridentes.
O avião. Sobe,
                               Desce,
                                               Sobee,
                                                               Deesce.
                Mais alto.
                Força…
                Mais alto.
 
 
(PM)
 

 
 

terça-feira, 7 de julho de 2015

João Guimarães e William Carlos Williams

 
16 de maio
 
 
 
 
 
 
 
O professor de matemática, sentado na mesa da frente. Caneta
Adivinha na mão pousa o boletim sobre o tampo, preenchendo sem
ciência as casas do boletim.  Uma cruz igual à outra assinala suas
escolhas, suspirando com pesar entre dois traços seguidos.
Custam-lhe as coisas simples, diz.
 
in poesia reunida
 
 

William Carlos WILLIAMS, "Café at Night"

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Manoel de Oliveira

(em Homenagem à Paixão com que amou o cinema até ao fim...)

 
(Foto: DR)
 

"Não gosto até da palavra espectador. Ou melhor, da palavra eu gosto. Não gosto é do público, da palavra "público" é que não gosto muito. Porque públicas são as cadeiras do cinema; são públicas. Agora, as pessoas que se sentam nelas, são pessoas, verdadeiramente pessoas, e cada um é distinto do outro. Cada um é um ser autêntico, e, portanto, nem todos estarão aptos ou sensíveis a uma sinfonia, a um trabalho qualquer, seja de que ordem for."

Diário de Notícias, 2011

quarta-feira, 25 de março de 2015

Herberto Helder

(Em homenagem...)
 
 
(Autor anónimo)
 


BICICLETA

Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais —
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.


O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e des
aparece uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.


De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa agora pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.


Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
o poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.



de Cinco Canções Lunares

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Teresa Guedes e Nutty


Avionar


 
“Não esteja na Lua
Desça à Terra.”
E o menino a replicar:
“Não me chega esta Terra.”
“Seja realista, terra a terra.”
“Mas eu sou do tipo ar, ar.”
E os olhos do menino
já eram balões quando a professora
lhe ordenou que saísse.
Despediu-se da colega e disse:
“Conto estrelas em ti”.
Ao sair, deixou na mesa da professora
o mais bonito avião de papel
que se possa imaginar.
Era uma prenda desesperada
de um menino triste
por não a poder contagiar.
Na sala, um silêncio ficou suspenso
por palavras que também quiseram
voar.

 
in Conto Estrelas em Ti.
 
 
 
 
Nutty, "Dreams of Ballons"