quinta-feira, 27 de abril de 2017

David Mourão-Ferreira e Marc Chagall

Paraíso










Deixa ficar comigo a madrugada,
para que a luz do Sol me não constranja.
Numa taça de sombra estilhaçada,
deita sumo de lua e de laranja.

Arranja uma pianola, um disco, um posto,
onde eu ouça o estertor de uma gaivota...
Crepite, em derredor, o mar de Agosto...
E o outro cheiro, o teu, à minha volta!

Depois, podes partir. Só te aconselho
que acendas, para tudo ser perfeito,
à cabeceira a luz do teu joelho,
entre os lençóis o lume do teu peito...

Podes partir. De nada mais preciso
para a minha ilusão do Paraíso.



in "Infinito Pessoal" (1959-1962)






CHAGALL, Marc, "Paraíso, com Adão e Eva",  1961



domingo, 23 de abril de 2017

Cecília Meireles e Anna Ancher


Poema para a Vó Teca










Fui morena e magrinha como qualquer polinésia,
e comia mamão, e mirava a flor da goiaba.
E as lagartixas me espiavam, entre tijolos e as trepadeiras,
e as teias de aranha nas minhas árvores me entrelaçavam.

Isso era num lugar de sol e nuvens brancas,
onde as rolas, à tarde, soluçavam mui saudosas…
O eco, burlão, de pedra em pedra ia saltando,
entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas.

Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho,
e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas,
que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas,
pois a vida completa e bela e terna ali já estava.

Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa!
E o papagaio como ficava sonolento!
O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmáticos
fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo.

Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros,
e os grandes cães ladravam como nas noites do Império.
Mariposas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes

E minha avó cantava e cosia. Cantava
canções de mar e de arvoredo, em língua antiga.
E eu sempre acreditei que havia música em seus dedos
e palavras de amor em minha roupa escritas.

Minha vida começa num vergel colorido,
por onde as noites eram só de luar e estrelas.
Levai-me aonde quiserdes! ─ aprendi com as primaveras
a deixar-me cortar e a voltar sempre inteira.






ANCHER, Anna, "Mulher de Pescado Costurando", 1890

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Cecília Meireles e Joan Miró



Desenho











Traça a reta e a curva,
a quebrada e a sinuosa
Tudo é preciso.
De tudo viverás.

Cuida com exatidão da perpendicular
e das paralelas perfeitas.
Com apurado rigor.
Sem esquadro, sem nível, sem fio de prumo,
traçarás perspectivas, projetarás estruturas.
Número, ritmo, distância, dimensão.
Tens os teus olhos, o teu pulso, a tua memória.

Construirás os labirintos impermanentes
que sucessivamente habitarás.

Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.
Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.
E nem para o teu sepulcro terás a medida certa.

Somos sempre um pouco menos do que pensávamos.
Raramente, um pouco mais.






MIRÓ, Joan,"Azul III"


terça-feira, 18 de abril de 2017

José Saramago e Leonid Afremov

Intimidade




No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.
in "Os Poemas Possíveis" 


AFREMOV, Leonid, "Classical Tango"

domingo, 16 de abril de 2017

Nuno Júdice e Carrie Vielle

Volta até mim no silêncio da noite









Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie
o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré da manhã com que
todos os náufragos sonharam. 




VIELLE, Carrie, Título Desconhecido, retirado de Google

terça-feira, 11 de abril de 2017

Nuno Judice e Marc Chagall

Um Amor








Aproximei-me de ti; e tu, pegando-me na mão,
puxaste-me para os teus olhos
transparentes como o fundo do mar para os afogados. 

Depois, na rua, 
ainda apanhámos o crepúsculo.
As luzes acendiam-se nos autocarros; um ar
diferente inundava a cidade. Sentei-me
nos degraus do cais, em silêncio.
Lembro-me do som dos teus passos,
uma respiração apressada, ou um princípio de lágrimas,
e a tua figura luminosa atravessando a praça
até desaparecer. Ainda ali fiquei algum tempo, isto é,
o tempo suficiente para me aperceber de que, sem estares ali,
continuavas ao meu lado. E ainda hoje me acompanha
essa doente sensação que
me deixaste como amada
recordação. 



in "A Partilha dos Mitos"



CHAGALL, Marc, "Promenade

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Manuel António Pina e Rafael Alberti


A Poesia Vai Acabar








A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?»     E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —



 in "Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. 

Calma é Apenas um Pouco Tarde"


ALBERTI, Rafael, "La Lamentable"

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Joaquim Manuel Magalhães e John Everett Milais








Era de inverno, em Vila Real. A neve
cobria as ruas que levavam ao liceu.
Dentro da confeitaria, as luvas de cabedal
no tampo de vidro, o vapor da respiração
ligava-nos entre as conversas de mesas indiferentes.
E querias olhar para mais dentro de mim.

Os pombos escondidos nos beirais tapavam
a cabeça na plumagem de chumbo, cor do céu.
Calados, afeitos ao silêncio, enlaçámos
em cada um dos nossos livros a primeira letra
dos nossos nomes, de modo a desenharem
uma única letra que não havia em alfabeto nenhum.
Que bem que estávamos tão mal ali sentados,
a faltar às aulas, nessa primeira vez
em que nos acontecia, sem sabermos, um amor.

Tu não ias adivinhar as leis secretas
que já nos separavam. Tu não podias
lutar na via de sangue da minha vida.
Mas sempre que tombar a neve em Vila Real
e desceres a avenida a caminho do café
de alguma destas coisas, quem sabe, te hás de lembrar.


in Segredos, Sebes, Aluviões, 1985




MILAIS, John Everett, "Paisagem de Inverno"

(Pintor e ilustrador inglês (1829-1926))

domingo, 26 de março de 2017

Manuel Alegre


Como Ulisses te busco e desespero











Como Ulisses te busco e desespero
como Ulisses confio e desconfio
e como para o mar se vai um rio
para ti vou. Só não me canta Homero.

Mas como Ulisses passo mil perigos
escuto a sereia e a custo me sustenho
e embora tenha tudo nada tenho
que em te não tendo tudo são castigos.

Só não me canta Homero. Mas como U-
lisses vou com meu canto como um barco
ouvindo o teu chamar -- Pátria Sereia
Penélope que não te rendes -- tu

que esperas a tecer um tempo ideia
que de novo o teu povo empunhe o arco

como Ulisses por ti nesta Odisseia. 




(Autor Desconhecido)

quarta-feira, 15 de março de 2017

David Mourão-Ferreira e José de Almada Negreiros


Maria Lisboa








É varina, usa chinela,
tem movimento de gata.
Na canastra, a caravela;
no coração, a fragata.

Em vez de corvos, no xaile
gaivotas vêm pousar.
Quando o vento a leva ao baile,
baila no baile coo mar.

É de conchas o vestido;
tem algas na cabeleira;
e nas veias o latido
do motor duma traineira.

Vende sonho e maresia,
tempestades apregoa.
Seu nome próprio, Maria.
Seu apelido Lisboa.






NEGREIROS, José de Almada, "Varina"

domingo, 15 de janeiro de 2017

Francisco José Barata e Pedro Olayo Filho


O Casario











este fado que
ecoa
são lágrimas
deste lugar
e uma gaivota
que voa
sobre o casario
de lisboa
leva a cidade
pró mar





(Lisboa, 1998)




FILHO, Pedro Olayo, "Porto Marítimo - Poço do Bispo, Lisboa" (Óleo sobre tela - assinado)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Álvaro de Campos e Marta Moro



Lisboa com suas casas





Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores,
Lisboa com suas casas
De várias cores…
À força de diferente, isto é monótono.
Como à força de sentir, fico só a pensar.

Se, de noite, deitado mas desperto,
Na lucidez inútil de não poder dormir,
Quero imaginar qualquer coisa
E surge sempre outra (porque há sono,
E, porque há sono, um bocado de sonho),
Quero alongar a vista com que imagino
Por grandes palmares fantásticos.
Mas não vejo mais,
Contra uma espécie de lado de dentro de pálpebras,
Que Lisboa com suas casas
De várias cores.

Sorrio, porque, aqui, deitado, é outra coisa.
À força de monótono, é diferente.
E, à força de ser eu, durmo e esqueço que existo.

Fica só, sem mim, que esqueci porque durmo,
Lisboa com suas casas
De várias cores.



in Poesias de Álvaro de Campos, 1934






MORO, Marta, "Chiado"

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

António Nobre e Minoru Nagashima


Á Lisboa das Naus Cheia de Gloria






I

Lisboa á beira-mar, cheia de vistas,
Ó Lisboa das meigas Procissões!
Ó Lisboa de Irmãs e de fadistas!
Ó Lisboa dos lyricos pregões...
Lisboa com o Tejo das Conquistas,
Mais os ossos provaveis de Camões!
Ó Lisboa de marmore, Lisboa!
Quem nunca te viu, não viu coisa boa...


II

És tu a mesma de que falla a Historia?
Eu quero ver-te, aonde é que estás, aonde?
Não sei quem és, perdi-te de memoria,
Dize-me, aonde é que o teu perfil se esconde?
Ó Lisboa das Naus, cheia de gloria,
Ó Lisboa das Chronicas, responde!
E carregadas vinham almadias
Com noz, pimenta e mais especiarias...


III

Ai canta, canta ao luar, minha guitarra,
A Lisboa dos Poetas Cavalleiros!
Galeras doidas por soltar a amarra,
Cidade de morenos marinheiros,
Com navios entrando e saindo a barra
De prôa para paizes extrangeiros!
Uns p'ra França, acenando Adeus! Adeus!
Outros p'r'as Indias, outros... sabe-o Deus!


IV

Ó Lisboa das ruas mysteriozas!
Da _Triste Feia_, de _João de Deus_,
_Becco da India_, _Rua das Fermosas_,
_Becco do Falla-Só_ (os versos meus...)
E outra rua que eu sei de duas _Rozas_,
_Becco do Imaginario_, dos _Judeus_,
_Travessa_ (julgo eu) _das Izabeis_,
E outras mais que eu ignoro e vós sabeis.


V

Meiga Lisboa, mystica cidade!
(Ao longe o sonho desse mar sem fim.)
Que pena faz morrer na mocidade!
Teus sinos, breve, dobrarão por mim.
Mandae meu corpo em grande velocidade,
Mandae meu corpo p'ra Lisboa, sim?
Quando eu morrer (porque isto pouco dura)
Meus Irmãos, dae-me alli a sepultura!


VI

Luar de Lisboa! aonde o ha egual no Mundo?
Lembra leite a escorrer de tetas nuas!
Luar assim tão meigo, tão profundo,
Como a cair d'um céo cheio de luas!
Não deixo de o beber nem um segundo,
Mal o vejo apontar por essas ruas...
Pregoeiro gentil lá grita a espaços:
«Vae alta a lua!» de Soares de Passos.


VII

Formoza Cintra, onde, alto, as aguias pairam,
Cintra das solidões! beijo da Terra!
Cintra dos noivos, que ao luar desvairam,
Que vão fazer o seu ninho na serra;
Cintra do Mar! Cintra de Lord Byron,
Meu nobre camarada de Inglaterra!
Cintra dos Moiros com os seus adarves,
E, ao longe, em frente, o Reyno dos Algarves!


VIII

Romantica Lisboa de Garrett!
Ó Garrett adorado das mulheres,
Hei-de ir deixar-te, em breve, o meu bilhete
Á tua linda caza dos _Prazeres_.
Mas qual seria a melhor hora, ás sete,
Garrett, para tu me receberes?
O teu porteiro disse-me, a sorrir,
Que tu passas os dias a dormir...


IX

Pois tenho pena, amigo, tenho pena;
Levanta-te d'ahi, meu dorminhoco!
Que falta fazes á Lisboa amena!
Anda vêr Portugal! parece louco...
Que patria grande! como está pequena!
E tu dormindo sempre ahi no «choco».
Ah! como tu, dorme tambem a Arte...
Pois vou-me aos toiros, que o comboio parte!


X

Ó Lisboa vermelha das toiradas!
Nadam no Ar amores e alegrias.
Vêde os Capinhas, os gentis Espadas,
Cavalleiros, fazendo cortezias...
Que graça ingenua! farpas enfeitadas!
O Povo, ao Sol, cheirando ás marezias!
Vêde a alegria que lhe vae nas almas!
Vêde a branca Rainha, dando palmas!


XI

Ó suaves mulheres do meu desejo,
Com mãos tão brancas feitas p'ra caricias!
Ondinas dos Galeões! Nymphas do Tejo!
Animaeszinhos cheios de delicias...
Vosso passado quão longiquo o vejo!
Vós sois Arabes, Celtas e Phenicias!
Lisboa das Varinas e Marquezas...
Que bonitas que são as Portuguezas!


XII

Senhoras! ainda sou menino e moço,
Mas amores não tenho nem carinhos!
Vida tão triste supportar não posso:
Vós que ides á novena, aos _Inglezinhos_.
Senhoras, rezai por mim um Padre Nosso,
N'essa voz que tem beijos e é de arminhos.
Rezae por mim, vereis,--vossos peccados,
(Se acaso os tendes), vos serão perdoados...


XIII

Rezae, rezae, Senhoras por aquelle
Que no Mundo soffreu todas as dores!
Odios, traições, torturas,--que sabe elle!
Perigos de agoa, e ferro e fogo, horrores!
E que, hoje, aqui está, só osso e pelle,
A espera que o enterrem entre as flores...
Ouvi: estão os sinos a tocar:
Senhoras de Lisboa! ide rezar.


in Despedidas: 1895-1899, 1902



NAGASHIMA, Minoru, "Príncipe Real"

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Sophia de Mello Breyner Andresen e J. Oliveira



Tejo











Aqui e além em Lisboa – quando vamos
Com pressa ou distraídos pelas ruas
Ao virar da esquina de súbito avistamos
Irisado o Tejo:
Então se tornam
Leve o nosso corpo e a alma alada


in Obra Poética, 2011


OLIVEIRA, J., "Lisboa vista do Tejo com cacilheiro"

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

Adília Lopes



Lisboa






Cidade branca
semeada
de pedras

Cidade azul
semeada
de céu

Cidade negra
como um beco

Cidade desabitada
como um armazém

Cidade lilás
semeada
de jacarandás
Cidade dourada

semeada
de igrejas

Cidade prateada
semeada
de Tejo

Cidade que se degrada
cidade que acaba.



 in Poemas Novos, 2006





Autor desconhecido (retirado da net), "Lisboa Naif"

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Eugénio de Andrade e Carlos Alexandre



Aos jacarandás de Lisboa 











São eles que anunciam o verão.

Não sei doutra glória, doutro

paraíso: à sua entrada os jacarandás

estão em flor, um de cada lado.

E um sorriso, tranquila morada,

à minha espera.

O espaço a toda a roda

multiplica os seus espelhos, abre

varandas para o mar.

É como nos sonhos mais pueris:

posso voar quase rente

às nuvens altas – irmão dos pássaros –,

perder-me no ar.




in Os Sulcos da Sede, 2001






ALEXANDRE, Carlos, "Lisboa, Av. da Liberdade"



terça-feira, 8 de novembro de 2016

Ana Hatherly e Thierry Baille

O Terceiro Corvo




Oh Lisboa
como eu gostava de ser
o terceiro corvo do teu emblema…
estar implícita na tua bandeira
negra e branca
como tinta e papel
como escrita e espaço!

Ser teu desenho
tua nova lenda
invenção deste século
que já não inventa
e se interroga:
donde vieram estes corvos?

Como tu, Vicente,
eu também não sou de cá
não sou daqui
não pertenço a esta terra
e talvez nem sequer a este mundo…

Porém estou aqui
nesta dolorosa praia lusitana
cheia de um tumulto inútil
que enegrece as tuas areias
e polui o ventre do rio
que os golfinhos há muito desertaram

E olhando as nuvens dedilhadas pelo vento
sentindo a terna dor do teu sentir sentido
peço-te, Lisboa:
surge de novo bela
reinventa
a santidade perdida do teu emblema


in Em Lisboa sobre o mar, Poesia 2001-2010




BAILLE, Thierry, "Cicerone"

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Manuel Alegre e anónimo

Balada de Lisboa




Em cada esquina te vais
Em cada esquina te vejo
Esta é a cidade que tem
Teu nome escrito no cais
A cidade onde desenho
Teu rosto com sol e Tejo


Caravelas te levaram
Caravelas te perderam
Nas manhãs da tua ausência
Tão perto de mim tão longe
Tão fora de seres presente


Esta é a cidade onde estás
Como quem não volta mais
Tão dentro de mim tão que
Nunca ninguém por ninguém
Em cada dia regressas
Em cada dia te vais.

Em cada rua me foges
Em cada rua te vejo
Tão doente da viagem
Teu rosto de sol e Tejo
Esta é a cidade onde moras
Como quem está de passagem

Às vezes pergunto se
Às vezes pergunto quem
Esta é a cidade onde estás
Com quem nunca mais vem
Tão longe de mim tão perto
Ninguém assim por ninguém



in Babilónia, 1983







Pintura de azulejo de autoria anónima, em Lisboa, Portugal, sem data.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Alexandre O'Neill e Raquel Martins



E de novo, Lisboa, te remancho, 






E de novo, Lisboa, te remancho,
numa deriva de quem tudo olha
de viés: esvaído, o boi no gancho,
ou o outro vermelho que te molha. Sangue na serradura ou na calçada,
que mais faz se é de homem ou de boi?
O sangue é sempre uma papoila errada,
cerceado do coração que foi.Groselha, na esplanada, bebe a velha,
e um cartaz, da parede, nos convida
a dar o sangue. Franzo a sobrancelha:
dizem que o sangue é vida; mas que vida?
Que fazemos, Lisboa, os dois, aqui,
na terra onde nasceste e eu nasci?




in De Ombro na Ombreira, 1969




MARTINS, Raquel, "Candeeiros de Lisboa"

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Eugénio de Andrade e autor desconhecido

Lisboa



Alguém diz com lentidão:
"Lisboa, sabes..."
Eu sei. É uma rapariga 
descalça e leve,
um vento súbito e claro
nos cabelos,
algumas rugas finas
a espreitar-lhe os olhos,
a solidão aberta
nos lábios e nos dedos,
descendo degraus
e degraus até ao rio. Eu sei. E tu, sabias?



in Até Amanhã, 1956


Autor Desconhecido, "Lisboa, Sorrisos"

domingo, 9 de outubro de 2016

Sophia de Mello Breyner Andresen e Gonçalo da Costa França


Lisboa



Digo:
“Lisboa”
Quando atravesso – vinda do sul – o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas –
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
– Digo para ver



in Obra Poética, 2011




FRANÇA, Gonçalo da Costa, "Lisboa Igreja de Santo António e Sé"

domingo, 2 de outubro de 2016

David Mourão-Ferreira e Jacinta Jerónimo

Pequena Ode A Um Carro Eléctrico 












Colectivo sarcófago ambulante, 
conduzes centos de almas, dia a dia 
(ó morte desleal de cada instante!), 
para a conquista pávida, incessante, 
do envenenado pão do dia-a-dia. 


Por isso te ergo a símbolo quase eterno, 
ó provisória barca do Inferno! 



in Tempestade de Verão





JERÓNIMO, Jacinta, “Monumentos e Elétricos de Lisboa

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Eugénio de Andrade e Brendan Higgins


Os olhos rasos de água

 

Cansado de ser homem o dia inteiro

chego à noite com os olhos rasos de água.

Posso então deitar-me ao pé do teu retrato,

entrar dentro de ti como num bosque.

 

É a hora de fazer milagres:

posso ressuscitar os mortos e trazê-los

a este quarto branco e despovoado,

onde entro sempre pela primeira vez,

para falarmos das grandes searas de trigo

afogadas na luz do amanhecer.

 

Posso prometer uma viagem ao paraíso

a quem se estender ao pé de mim,

ou deixar uma lágrima nos meus olhos

ser a nostalgia das areias.

 

É a hora de adormecer na tua boca,

como um marinheiro num barco naufragado,

o vento na margem das espigas.
 

HIGGINS, Brendan, "Water Series", 2013

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Ondjaki e Lily Greenwood


Para vivenciar nadas


                 para e com chiara, bea, valérie

 

 


borboleta é um ser irrequieto

para vestes usa pólen.

tem um cheiro colorido

e babas de amizade.

descola por ventos

e facilmente aterriza em sonhos.

borboleta tem correspondência direta

com a palavra alma.

para existir usa liberdades.

desconhece o som da tristeza

embora saiba afogá-la.

usa com afinidades

o palco da natureza.

nega maquilhagens isentas de materiais cósmicos. como digo:

pó-de-lua, lápis solar

castanho-raíz, cinzento-nuvem.

borboleta dispõe de intimidades

com arco íris

a ponto de cócegas mútuas.

para beijar amigos e vidas ela usa olhos.

borboleta é um ser

de misteriosos nadas.

 

In Há Prendisajens Com o Xão
 
 
 
 
 
GREENWOOD, Lily, "Red"